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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Por que a frase “Autismo não é deficiência, é uma habilidade diferente” é enganosa e prejudicial aos autistas

Descrição da imagem #PraCegoVer: Uma camiseta preta cuja estampa mostra quatro esqueletos, sendo três brancos eretos e um multicolorido fazendo uma pose de alguém que venceu, e a mensagem criticada "Autismo não é uma deficiência, é uma habilidade diferente". Abaixo da estampa, a imagem diz: "Por que o autismo é uma deficiência e esta camiseta promove desinformação e capacitismo". Fim da descrição.
Negação das deficiências dos autistas: nunca vista essa camisa

Atualizado em 28/12/2022

Aviso de conteúdo: Este artigo menciona formas de capacitismo e pode reviver lembranças traumáticas do passado em alguns leitores. Prossiga apenas se tiver segurança de que não sofrerá com traumas ao lê-lo.

Muitos neurotípicos, principalmente mães e pais de autistas, na tentativa de empoderar seus filhos ou parentes neurodivergentes, estão compartilhando, inclusive estampada em camisetas, a frase "Autismo não é uma deficiência, é uma habilidade diferente".

Preciso dizer que essa mensagem mais atrapalha a nós autistas do que nos ajuda. Ela passa uma imagem totalmente equivocada do que o autismo é e não é e das nossas necessidades e limitações.

Saiba, neste artigo, por que, se você já usou ou ainda usa tal afirmação com boas intenções, precisa rever sua crença nela e aceitar que nós autistas somos pessoas com deficiência.

Ao contrário do que a frase diz, autismo é sim uma deficiência

Em primeiro lugar, preciso dizer: o autismo é uma deficiência, objetivamente falando.

Nós temos deficiência em âmbitos como:

  • A socialização;
  • A comunicação, principalmente a compreensão e uso de linguagem não verbal;
  • O processamento sensorial hiper e hipossensibilidades tátil, auditiva, luminosa, gustativa, olfativa, à dor, a temperaturas quentes ou frias etc.;
  • A regulação das emoções, uma vez que muitos de nós são propensos a picos de raiva, irritabilidade, tristeza, euforia etc. que temos dificuldade de controlar;
  • A coordenação motora.

Além disso, é muito comum autistas terem uma ou mais condições coexistentes, como:

  • TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade);
  • Síndrome de Tourette;
  • Síndrome de Ehlers-Danlos;
  • Dislexia;
  • Discalculia;
  • Prosopagnosia (capacidade baixa ou ausente de reconhecer rostos);
  • TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo);
  • Distúrbios do sono;
  • Epilepsia;
  • Intermitência ou ausência da capacidade de falar;
  • Capacidade baixa ou ausente de perceber necessidades fisiológicas (fome, sede, vontade de urinar ou defecar etc.);
  • No caso de muitos autistas de níveis 2 e 3 de suporte, algum grau de deficiência intelectual.

Isso sem falar que muitos de nós, sobretudo aqueles de níveis 2 e 3, costumam ter dificuldades consideráveis de cuidar de si mesmos e, por isso, necessitam de apoio substancial ou muito substancial.

Tanto é que a Lei Federal nº 12.764/2012 oficializa que nós autistas somos pessoas com deficiência e, portanto, temos os mesmos direitos de qualquer outra pessoa com deficiência.

Também devemos nos lembrar de que a Lei Brasileira de Inclusão (Lei Federal nº 13.146/2015), Artigo 1º, define a pessoa com deficiência como:

aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.

Nós de fato sofremos com a obstrução de nossa participação na sociedade por barreiras sensoriais e principalmente sociais, como descrevo a seguir.

Nós autistas sofremos com o capacitismo

Outra razão pela qual é nocivo negar a natureza de deficiência do autismo é que nós autistas sofremos preconceito e discriminação capacitistas ao longo de nossas vidas.

Nossas capacidades intelectuais, laborais e emocionais, como as de amar, ter empatia, nos preocupar com o próximo, manifestar senso crítico e trazer contribuições de grande importância para o mundo, são muito comumente subestimadas por neurotípicos preconceituosos.

Somos vistos como “doidos”, “doentes”, “incapazes”, “insensíveis”, “grosseiros”, “arrogantes” e “marionetes dos pais” simplesmente por sermos autistas. 

Somos violentados com bullying, insultos, desincentivos de nossas capacidades, incentivos ao auto-ódio, discriminação em serviços de saúde e outras formas de abuso psicológico ou mesmo violência física.

Muitos de nós são impedidos de se matricular em escolas simplesmente por serem quem são. E mesmo quando a escola ou universidade nos dá “boas vindas”, podemos sair dela com um aprendizado medíocre por causa da ausência de inclusão pedagógica que considere nossas necessidades específicas, sobretudo a de autistas com dupla excepcionalidade (ex.: autistas com TDAH, autistas com altas habilidades, autistas com dislexia).

A maioria das cidades grandes são verdadeiros infernos sensoriais para nós. Em muitos casos, andar de ônibus ou trem lotados nos é uma experiência amargamente traumática. Até pegar um táxi ou Uber pode ser um grande desafio, por envolver alguma interação com o motorista.

O mercado de trabalho nos exclui sistematicamente, nos trata como incapazes e subestima nosso potencial

Infelizmente são raras exceções as empresas que reconhecem e atendem às nossas necessidades específicas, conscientizam seus outros funcionários e nos permitem aproveitar nossos pontos fortes vocacionais.

Dizer que “autismo não é deficiência” implica dizer que autistas não precisam de acessibilidade e inclusão

Além disso, quando alguém diz que autismo não é uma deficiência, acaba insinuando, por tabela, que autistas sem deficiências coexistentes não precisariam de acessibilidade nem inclusão.

Quando alguém acredita que autistas não são pessoas com deficiência, o pensamento dela implica logicamente que nós não precisaríamos de apoios acessíveis como salas livres de excesso de estímulos sensoriais no ENEM e em concursos públicos, transportes com baixo ruído e sessões de cinema adaptadas.

Também crê que não necessitamos de políticas específicas de inclusão e combate ao capacitismo. Nem de direitos, benefícios e políticas afirmativas como o passe livre, os assentos preferenciais no transporte público, as cotas de pessoas com deficiência e o atendimento prioritário.

A crença de que “autismo não é deficiência” invisibiliza os autistas de níveis 2 e 3 de suporte

Dizer que “o autismo não é uma deficiência” implica também invisibilizar os autistas de níveis 2 e 3 de suporte, cujas deficiências são ainda mais nítidas e óbvias perante a sociedade como um todo.

Autistas dessas categorias, como já foi introduzido mais acima, muitas vezes têm sérias dificuldades de cuidar de si mesmos. 

Comer, vestir-se, fazer xixi e cocô, tomar banho, escovar os dentes, calçar sapatos etc. sozinhos podem ser enormes desafios para aqueles que não tiveram intervenção terapêutica que lhes permitisse desenvolver suficientemente essas habilidades.

Além disso, grande parte dos autistas dessas duas categorias possuem deficiência intelectual e/ou não são oralizados. Isso sem falar nas outras também muito presentes deficiências coexistentes.

Quando alguém vem com a crença de que “autismo não é uma deficiência, é uma habilidade diferente”, está invisibilizando perante a sociedade todas essas pessoas e suas dificuldades. 

Está reduzindo todo o espectro e população autistas àquela pequena parcela que possui inteligência mais proeminente e o privilégio de ter acesso amplo às devidas terapias.

Ou seja, essa afirmação é capacitista não apenas por rebaixar as deficiências que os autistas de fato possuem, como também por ignorar e discriminar milhões de autistas de níveis mais substanciais de necessidade de apoio.

Essa crença faz uma falsa e romantizada idealização do que é ser autista

Se por um lado a infame frase invisibiliza e exclui os autistas de níveis 2 e 3 de suporte, pelo outro ela faz uma idealização falsa, superestimada e romantizada do que é ser autista de nível 1.

Para quem acredita nessa frase, os autistas seriam sempre extraordinariamente inteligentes, superdotados, candidatos a novos Einsteins

O autismo nos seria uma vantagem por nos proporcionar essa suposta superinteligência. Não nos traria grandes dificuldades de viver em meio a uma maioria de neurotípicos e em cidades abarrotadas de estímulos sensoriais.

Diante desse estereótipo positivo, tão nocivo quanto os negativos, preciso esclarecer: se por um lado existem de fato muitos autistas muito inteligentes, por outro essas mesmas pessoas sofrem com todos os já mencionados problemas decorrentes de ser autista numa sociedade de maioria neurotípica e capacitista.

Até poderíamos manifestar notáveis habilidades diferentes se os neurotípicos não nos tratassem com tanto preconceito e exclusão e não nos impusessem tantas barreiras nas instituições de ensino e no mercado de trabalho.

Ser autista de nível 1 de suporte, numa sociedade assim, ao contrário do que a frase deixa a entender, não é nenhuma maravilha - ou pior, em muitas situações pode ser até infernal. Por mais que chamem o autismo de pessoas como eu de “leve”, as nossas dificuldades e sofrimentos não têm nada de leves.

Usar essa frase é confundir deficiência com doença ou incapacidade

Acredito que a pessoa que idealizou tal frase queria dizer que autismo não é uma doença, nem um fardo, nem um fator inferiorizante.

Inclusive tudo me leva a crer que o sentido original pretendido para a frase era que autismo não é uma incapacidade, mas sim uma capacidade diferente. Essa sim seria uma frase anticapacitista e conscientizadora.

Se foi isso mesmo, a frase publicada no lugar, ao escolher as palavras erradas, cometeu um grave erro ao associar deficiência com ser "incapaz" e, assim, passar uma imagem equivocada e preconceituosa tanto do autismo quanto das deficiências humanas em geral.

Provavelmente ela acreditou que, para convencer as pessoas de que autismo não é doença nem incapacidade, teria que negar também sua condição de deficiência. Isso foi uma péssima ideia.

Conclusão

Por todos esses motivos, nós autistas consideramos falsa, preconceituosa, discriminatória e, portanto, seriamente prejudicial a mensagem de que "autismo não é uma deficiência, é uma habilidade diferente".

Autismo é uma deficiência e só em uma parcela restrita de casos traz o potencial de desenvolver habilidades diferentes.

As barreiras capacitistas, sensoriais, anti-inclusivas etc. impostas pela sociedade nos inibem de concretizar esse potencial e limitam nossas capacidades.

Quando dizem que o autismo "não é deficiência", apagam todas as dificuldades, as negações ou limitações de acessibilidade, o capacitismo, a exclusão social e os traumas que sofremos por sermos quem somos, além de negarem a existência de uma parcela enorme da população autista.

Então, peço a você: evite promover essa mensagem tão equivocada. Não compactue com desinformação que patologiza as deficiências humanas, invisibiliza nossas atribulações e nega nossas reais necessidades. 

Se você já usou essa imagem, por favor, nunca mais use-a novamente, pelo bem dos autistas.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Apresentação: Oi, eu sou um autista de nível 1 de suporte

Descrição da imagem #pratodosverem: foto de um botton com um balão de fala escrito "Eu sou autista" em inglês. Fim da descrição.
Oi pessoal, eu sou autista de nível 1 de suporte (foto: Etsy)

Reescrito em 15/01/2022, com a remoção das menções à "Síndrome de Asperger" e sua substituição pelo autismo de nível 1 de suporte

Olá a você que veio conhecer e ler o blog Consciência Autista! Bem-vinda, bem-vindo, bem-vinde.

Permita-me apresentar: eu sou um autista de nível 1 de suporte - categoria antes conhecida como "aspies" ou "autistas leves".

Descobri minha condição neurodivergente em março de 2017, graças à minha namorada. Me assumi publicamente autista em dezembro do mesmo ano e consegui - com sorte e boas habilidades de escrita e memória de longo prazo - meu diagnóstico formal e laudo em dezembro de 2019.

Se você ainda não tem muita compreensão do autismo de nível 1, convido você a, neste artigo, conhecer melhor as suas características mais definidoras e marcantes e como eu me encaixo nelas. 

Esse conhecimento ajudará você a identificar se uma pessoa tem chances elevadas de ser esse tipo de autista mesmo que ela mesma não tenha consciência da própria condição. E também traz uma ótima oportunidade para você começar a desconstruir o seu capacitismo contra autistas.

O que é o autismo de nível 1 de suporte?


O autismo de nível 1 de suporte é a condição do espectro autista na qual o nível de necessidade de suporte que o indivíduo tem é relativamente básico, menos substancial do que autistas de níveis 2 (popularmente conhecidos como autistas "moderados") e 3 (autistas "severos").

Mesmo sendo uma necessidade de apoio menos intensiva, ela não deve ser ignorada, sob pena de exclusão, sofrimento, isolamento social e transtornos psiquiátricos.

Como foi mencionado no começo do texto, corresponde ao que muita gente chama de "autismo leve" e era conhecido, até dezembro de 2021, como "Síndrome de Asperger" - embora muitos afirmassem que existiam autistas "leves" "não aspies", os "autistas de alto funcionamento".

Hoje, de acordo com o CID-11 (Código Internacional de Doenças*, 11ª edição), em vigor desde janeiro de 2022, o autismo nível 1 é denominado oficialmente "Transtorno" do Espectro do Autismo sem deficiência intelectual e com comprometimento leve ou ausente da linguagem funcional.

*Apesar de o autismo estar listado num código de doenças, ele não é uma doença. Além disso, o código em si abrange não apenas patologias, mas também condições não patológicas, como o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), os transtornos de desenvolvimento de aprendizagem (como dislexia, disgrafia e discalculia) e a menção à "incongruência de gênero" (correspondente às identidades de gênero trans e não binárias).

Características marcantes do autismo de nível 1


Antes de tudo, o autismo de nível 1 possui todas as características listadas pelo DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição), comuns a todos os autistas - variando a intensidade de cada característica de acordo com o nível de necessidade de suporte:

1. Déficits persistentes na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos, conforme manifestado pelo que segue, atualmente ou por história prévia (os exemplos são apenas ilustrativos, e não exaustivos):

a) Déficits na reciprocidade socioemocional, variando, por exemplo, de abordagem social anormal (sic) e dificuldade para estabelecer uma conversa normal (sic) a compartilhamento reduzido de interesses, emoções ou afeto, e dificuldade para iniciar ou responder a interações sociais.
b) Déficits nos comportamentos comunicativos não verbais usados para interação social, variando, por exemplo, de comunicação verbal e não verbal pouco integrada a anormalidade (sic) no contato visual e linguagem corporal, ou de déficits na compreensão e uso de gestos a ausência total de expressões faciais e comunicação não verbal.
c) Déficits para desenvolver, manter e compreender relacionamentos, variando, por exemplo, de dificuldade em ajustar o comportamento para se adequar a contextos sociais diversos a dificuldade em compartilhar brincadeiras imaginativas, ou em fazer amigos a ausência de interesse por pares.

2. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, conforme manifestado por pelo menos dois dos seguintes, atualmente ou por história prévia (os exemplos são apenas ilustrativos, e não exaustivos):

a) Movimentos motores, uso de objetos ou fala estereotipados (sic) ou repetitivos (por exemplo, estereotipias motoras simples, alinhar brinquedos ou girar objetos, ecolalia, frases idiossincráticas).
b) Insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal ou não verbal (como sofrimento extremo em relação a pequenas mudanças, dificuldades com transições, padrões rígidos de pensamento, rituais de saudação, necessidade de fazer o mesmo caminho ou ingerir os mesmos alimentos diariamente).
c) Interesses fixos e altamente restritos que são anormais (sic) em intensidade ou foco (por exemplo, forte apego a ou preocupação com objetos incomuns, interesses excessivamente circunscritos ou perseverativos).
d) Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais ou interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente (como indiferença aparente a dor/temperatura, reação contrária a sons ou texturas específicas, cheirar ou tocar objetos de forma excessiva, fascinação visual por luzes ou movimento).

Os sintomas (sic) devem estar presentes precocemente no período do desenvolvimento, mas podem não se tornar plenamente manifestos até que as demandas sociais excedam as capacidades limitadas ou podem ser mascarados por estratégias aprendidas mais tarde na vida. Esses sinais causam prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo no presente, e não são melhor explicados por prejuízos da inteligência ou por atraso global do desenvolvimento.

O DSM-5 distingue o autismo de nível 1 dos outros níveis nesses quesitos:

Interação/comunicação social:

Nível 1 (necessita suporte): Prejuízo notado sem suporte; dificuldade em iniciar interações sociais, respostas atípicas ou não sucedidas para abertura social; interesse diminuído nas interações sociais; falência na conversação; tentativas de fazer amigos de forma estranha e malsucedida.

Comportamento restritivo / repetitivo:

Nível 1 (necessita suporte): Comportamento interfere significantemente com a função; dificuldade para trocar de atividades; independência limitada por problemas com organização e planejamento.


O autismo de nível 1 manifestado por mim


Como autista de nível 1, eu tenho todas essas características:

1. Déficits clinicamente significativos e persistentes na comunicação social e nas interações sociais, manifestadas de todas as maneiras seguintes:

a. Déficits expressivos na comunicação não verbal e verbal usadas para interação social;


Exemplos no meu caso:
  • Dificuldade ou incapacidade de entender comunicação não verbal;
  • Propensão ao “sincericídio”;
  • Dificuldade de entender ironias ou brincadeiras verbais;
  • Dificuldade de contato visual;
  • Baixa habilidade de gesticular com as mãos etc.
b. Falta de reciprocidade social;
  • Dificuldade muito grande, alternada com desinteresse, de socialização com neurotípicos;
  • Tendência a fazer e manter amizades apenas com quem tem muitas semelhanças de gostos e preferências político-ideológicas comigo;
  • Dificuldade de interagir em rodas de conversas;
  • A já mencionada dificuldade de entender ironias ou brincadeiras verbais;
  • Dificuldade ou incapacidade de perceber e entender normas sociais não ditas;
  • Desatenção a padrões de vestimenta;
  • Histórico notável, até 2012, de paqueras fracassadas e paixões não correspondidas por causa da carência de habilidades sociais etc.
c. Incapacidade para desenvolver e manter relacionamentos de amizade apropriados para o estágio de desenvolvimento.
  • Carência crônica de amigos próximos;
  • Isolamento social crônico semivoluntário;
  • Desejo frustrado de fazer e manter amizades duradouras;
  • Networking profissional precário;
  • "Sincericídios" que impediram, no passado, o estabelecimento de alianças no meio vegano e limitavam minha permanência em grupos etc.
2. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses e atividades, manifestados por pelo menos duas das maneiras abaixo:

a. Comportamentos motores ou verbais estereotipados, ou comportamentos sensoriais incomuns;

  • Sentir prazer em ouvir múltiplas e repetidas vezes os mesmos áudios esquisitos, como efeitos sonoplásticos e gritos de Seiya (do anime Os Cavaleiros do Zodíaco) apanhando e os rages do youtuber Pai Troll (dos vídeos dele publicados entre 2016 e 2018) etc.;
  • Stims (chamados pelos psiquiatras de "estereotipias") como ouvir os dedos batendo um no outro perto do ouvido, estalar a mandíbula e apertar repetidamente os botões de seta à esquerda e à direita do teclado do computador;
  • Tiques: a Síndrome de Tourette é uma condição coexistente ao meu autismo, além de eu ter "síndrome das pernas inquietas";
  • Ecolalias diversas;
  • Hipersensibilidade a ambientes barulhentos, calor abafado, luzes intensas e cheiros fortes;
  • Provável hipossensibilidade gustativa, preferindo comer alimentos muito adoçados ou muito temperados;
  • Hipersensibilidade a situações de estresse, briga e conflito;
  • Aversão a etiquetas de roupas etc.
b. Excessiva adesão/aderência a rotinas e padrões ritualizados de comportamento;
  • Querer que minha namorada repita os carinhos verbais que eu dirijo a ela - senão começo a sentir desconforto;
  • Manutenção de uma rotina diária de ligar o computador após acordar;
  • Escovar os dentes sempre da mesma maneira;
  • Dificuldade de trabalhar em outras coisas que não a escrita no computador ou o estudo;
  • Dificuldade de aderir a programas de lazer sem planejamento prévio etc.
c. Interesses restritos, fixos e intensos.
  • Hiperfoco no veganismo, nos Direitos Animais e na conscientização anticapacitista do autismo;
  • Dificuldade de me interessar em estudar disciplinas que caem em concursos públicos e de aprendê-las;
  • Dificuldade de me interessar em vocações com elevada empregabilidade;
  • Sensação de estar “preso” à vocação da produção de conteúdo sobre Ética Animal e neurodiversidade;
  • Coleção de livros de ciências humanas;
  • Gosto elevado pela leitura e pelo estudo etc.
3. Os sintomas (sic) devem estar presentes no início da infância, mas podem não se manifestar completamente até que as demandas sociais excedam o limite de suas capacidades.
  • Desde a infância tenho muito desses comportamentos;
  • Sempre fui uma criança isolada e antissocial;
  • Sempre tive dificuldades de socialização e um amplo histórico de sofrer discriminação;
  • Tenho tiques desde os 7 anos;
  • Só aprendi a falar aos 3 anos de idade;
  • Sempre tive uma caligrafia “feia”;
  • Desde os 3 ou 4 anos sou reconhecido como superdotado etc.


Algumas dificuldades vividas pelos autistas de nível 1


Geralmente os autistas de nível 1 passam por enormes e numerosas dificuldades ao lidar com a sociedade, a qual hoje não está preparada para acolher autistas e pessoas com outras neurodivergências.

Alguns desses percalços são:
  • Dificuldades de socialização e de fazer (e manter) amizades;
  • Amadurecimento social e comportamental mais lento, difícil, psicologicamente doloroso e marcado pelo sofrimento de abusos, hostilizações e repreensões;
  • Dificuldade de notar e obedecer regras sociais que não costumam ser reveladas de maneira verbal e explícita;
  • Capacidade limitada ou ausente de manter e controlar o contato visual;
  • Pouca elasticidade das expressões faciais;
  • Dificuldades imensas de se encaixar em empregos em que neurotípicos costumam se dar bem, por motivos como não aguentar a pressão de supervisores e patrões, a intolerância a ambientes barulhentos e/ou muito luminosos, a dificuldade de se socializar com outros colegas e perceber normas não verbalizadas, a eventual dificuldade de executar planejamentos;
  • Dificuldades de assimilar os costumes e gostos culturais dos neurotípicos, como futebol, música popular, maquiagem, programas de TV muito populares, acompanhar os assuntos em alta do momento etc.;
  • Sofrimento perante o excesso de estímulos sensoriais nas cidades, como barulhos, luzes artificiais e cheiros.
Não é à toa, assim, que os autistas de nível 1 costumam sofrer bullying na escola, em ambientes virtuais. no trabalho e, em alguns casos, no próprio lar. São cruelmente abusados e hostilizados quando se comportam de uma maneira que os neurotípicos preconceituosamente consideram “estúpida”, “idiota” ou “retardada”. 

Eu pessoalmente o sofri em escolas na infância e em um fórum de internet na adolescência.

Também é muito comum que o autista acabe vivendo em isolamento social crônico, carente de amigos, na sua infância, adolescência e, em muitos casos, também na idade adulta.

Afinal, sempre teve muita dificuldade de se socializar e fazer amizades firmes com neurotípicos e sofreu muitos maus tratos por não conseguir entender e se encaixar em normas sociais que não costumam ser verbalmente reveladas.

Autista com orgulho!


Sou autista com orgulho. Já tive vergonha de meu passado - e em muitos momentos quase senti vergonha de mim mesmo por ter fracassado nas muitas tentativas de me socializar e forçar mudanças na personalidade.

Nessas épocas passadas, sem saber do meu autismo, eu tentava insistentemente mudar na marra meu jeito de ser, meus comportamentos. 

Tentava ser extrovertido, mais sociável e adepto de conversas em grupo, mais fazedor de amizades, ampliar de maneira não espontânea meus gostos, me adequar às expectativas sociais dos neurotípicos, aprender a olhar “normalmente” nos olhos das pessoas...

Mas essas tentativas nunca davam certo, o que sempre me trazia uma melancólica frustração. 

Além disso, por muitos anos travei uma verdadeira guerra contra o meu passado. Sentia profunda vergonha e remorso de ter sido um adolescente e um jovem adulto considerado imaturo para a idade.
Mas depois que eu me descobri e me assumi autista, essa vergonha foi enterrada e deu lugar ao orgulho e autoaceitação plenos.

Enfim encontrei a razão, tão misteriosa até poucos anos atrás, de ser desde sempre alguém tão diferente e fora da caixinha da “normalidade” neurotípica. Depois que eu a conheci, fiz as pazes com o passado e passei a viver com cabeça mais erguida e peito mais aberto.

Tenho orgulho de mim mesmo por tudo que eu sou - minha superdotação, meu repertório intelectual e habilidade linguística que me permitem escrever muito bem blogs e livros e palestrar sem medo, minha elevada empatia, meu senso de humor excêntrico, até mesmo minhas dificuldades e limitações.

Considerações finais


Desde que eu me descobri autista, tenho assumido o compromisso de ajudar a defender os direitos dos autistas e demais pessoas neurodivergentes - até por eu ser um deles -, pregar a libertação da nossa minoria - e de todas as demais junto - do capitalismo que nos marginaliza e inferioriza e combater o capacitismo e a psicofobia dentro dos movimentos de esquerda e da comunidade vegana.

Sonho com um mundo em que pessoas como eu serão respeitadas plenamente do jeito que são, livres de todo o perigo de serem discriminadas e sofrerem bullying. 

Tenho esse sonho da mesma maneira que vislumbro um futuro de igualdade social, solidariedade, ética, sustentabilidade e também de libertação dos animais não humanos.

Faço questão de lutar com afinco, mais ainda do que já lutava, para que esse futuro chegue logo. Nenhum capacitista irá parar esta luta.