quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Como a exclusão de autistas dificulta minha inserção no mercado de trabalho


Atualizado em 06/01/2020

Um triste dado é repetido todos os anos: cerca de 80% de toda a população autista do planeta é desempregada.

Meu caso infelizmente é de ser um desses milhões de autistas desempregados, que, por questões como hiperfoco mercadologicamente desvalorizado e dificuldades de se adequar a trabalhos em empresas não inclusivas, acarretadas por um mercado capacitista e excludente, não conseguem arranjar um emprego.

Poucos são aqueles que têm a sorte de ter um hiperfoco valorizado pelo mercado de trabalho, como os especializados em Ciência da Computação ou em Engenharia Civil, e serem contratados por empresas que adotam uma política de inclusão de talentos autistas.

Quero contar como não tive essa sorte e hoje estou lutando arduamente para conseguir um trabalho autônomo que rentabilize aquilo no que sou bom e com o que posso lidar plenamente.

Um pouco da minha atribulação universitária


Para começo de conversa, tive - e até o momento tenho - uma vida acadêmica um tanto instável, por causa da ausência de políticas de inclusão de autistas e pessoas com outras deficiências invisíveis em universidades públicas.

Desisti de três cursos - Jornalismo, História e Bacharelado em Ciências Sociais -, tranquei duas vezes um curso antes de sair dele - Bacharelado em Ciências Sociais -, quase desisti dos dois nos quais me formei - Gestão Ambiental e Licenciatura em Ciências Sociais - e fracassei em três seleções de mestrado, cada uma para um curso diferente.

Em Gestão Ambiental, eu me diplomei, mas acabei não me identificando com o curso. Diante desse fato, não fiz estágio, não me preparei para trabalhar como gestor ambiental.

Só me identifiquei ligeiramente com a Educação Ambiental, que correspondia a um dos módulos daquele curso. Mas não a ponto de se tornar um hiperfoco e um interesse profissional a ser almejado com afinco.

Cheguei a comprar dezenas de livros de meio ambiente, principalmente de Educação Ambiental, mas se li cinco deles ao longo dos últimos dez anos, li muito.

Só fui encontrar um hiperfoco profissionalmente aproveitável na licenciatura em Ciências Sociais. Só que é aí que começa uma história que mistura a desconsideração de minhas deficiências (autismo nível 1 e TDAH) pelo mercado e pelo Estado com o fato de ter um hiperfoco do qual nem as empresas, nem os poderes políticos estabelecidos gostam.

Cheguei a entregar currículos em escolas em São Paulo - pretendo me mudar para lá quando for possível -, mas nenhuma aceitou.

Soube depois, num grupo do Facebook intitulado “Ciências Sociais e o mercado de trabalho”, que apenas escolas públicas contratam licenciados em CS/Sociologia - mediante concurso público ou seleção simplificada de temporários. Escolas privadas designam professores com outras formações, como História e Geografia, para ensinar Sociologia no ensino médio.

Também não encontrei nenhum curso à distância de CS para ser tutor de EAD, nem em universidades públicas.

A oportunidade restante que eu teria de ensinar seria em faculdades privadas, onde eu ensinaria Fundamentos de Sociologia em cursos diversos. Mas elas requerem que o postulante à vaga tenha pós-graduação - e como já falei, não consegui entrar no mestrado.

E para piorar, as perspectivas para licenciados em Ciências Sociais são sombrias para os próximos anos, caso Bolsonaro permaneça no poder ou, se cair, seja sucedido por outro presidente de direita.

A Sociologia está desaparecendo das grades curriculares do ensino médio. Poderá sumir de vez, ou se tornar muito rara em escolas, por causa da pressão dos defensores do famigerado Escola Sem Partido e de políticos reacionários.

E nas cada vez menos vagas que restam, a tendência é os professores serem vigiados por seus próprios alunos, de modo que não poderão mais expressar livremente suas opiniões políticas, nem ensinar a teoria marxista, um dos pilares da Sociologia, nem falar de temas caros a essa disciplina, como questões de gênero e orientação sexual.

Com isso, eu posso dizer que meu diploma de licenciatura em Ciências Sociais, no contexto atual, não tem nenhum valor para o mercado. A esperança é, num futuro próximo, após adquirir por meios autodidáticos o conhecimento sociológico que não obtive na UFPE, eu ministrar cursos online.

Meus hiperfocos atuais - e minha enorme dificuldade de mudar de foco


Com isso, restaram, profissionalmente falando, aqueles dois hiperfocos pelos quais eu tento construir meu sustento hoje: veganismo e ativismo neurodiverso.

Atualmente eu tento ganhar dinheiro comercializando meus três livros sobre veganismo, que não têm editora, em livrarias como o Clube de Autores, a Amazon e a Cultura, e vendendo e-books e livros afiliados.

Só que, até o momento, o rendimento tem sido muito baixo - entre poucas dezenas e poucas centenas de reais por mês -, insuficiente para, por exemplo, pagar um curso bom de marketing digital e contratar serviços de design, ambos os quais impulsionariam minhas vendas.

Nem sequer consigo poupar e juntar essa mixaria, porque sempre aparece algum motivo para gastar, como a compra de paroxetina, risperidona e suplementos de vitamina B12 e a recarga de meu bilhete de ônibus e dos créditos do meu celular.

Diante disso, entre 2016 d 2018 pensei frequentemente que deveria tentar mudar meu hiperfoco para algo realmente aceito pelo mercado de trabalho - como, por exemplo, gestão de redes sociais de empresas ou trabalhos de design.

Só que essa tentativa de mudá-lo forçadamente me rendeu muito sofrimento. Sofri com uma depressão, que felizmente está sob controle e pode até ter sido curada.

Afinal, não consegui aprender a gostar de nenhuma área profissional minimamente rentável, tenho que lidar com os ganhos ridiculamente baixos com meus livros e produtos afiliados e tenho visto meus sonhos serem sempre empurrados com a barriga, por causa da falta de dinheiro, da quase inflexibilidade dos meus interesses especiais profissionais e de problemas de produtividade decorrentes do meu provável TDAH e da minha Síndrome de Atraso da Fase do Sono.

Conclusão


Essa é a minha atribulada história de tentativa de ganhar meu próprio dinheiro e me encaixar no mercado de trabalho. Uma história na qual, até o momento, não obtive muito sucesso e, por isso, vivo como um "adolescente velho", ou "Peter Pan involuntário", dependente dos pais e longe da emancipação financeira que se espera dos adultos.

Posso dizer que a maioria dos autistas adultos no Brasil passa por algo semelhante ao que eu tenho passado: muita dificuldade de se encaixar num curso universitário e num emprego, dificuldades de encontrar um trabalho apropriado sem um laudo de pessoa com deficiência, hiperfoco de difícil flexibilização que mais atrapalha do que ajuda a se inserir no mercado... Afinal, o Estado e o mercado não reconhecem nossas necessidades específicas e não nos aceitam como trabalhadores.

Minha luta para ter o meu próprio dinheiro continua, a muito custo e persistência. E infelizmente as barreiras que a sociedade impõe a pessoas como eu têm me impedido de conseguir sucesso até o momento.

Espero, com este artigo, trazer para muitas pessoas a consciência que lhes falta sobre o quanto tem sido difícil para nós se encaixar nesse excludente mercado de trabalho.

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