quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Por que é falso e nocivo dizer que “autismo não é deficiência, mas sim uma habilidade diferente”

Descrição da imagem #PraCegoVer: Uma camiseta preta cuja estampa mostra quatro esqueletos, sendo três brancos eretos e um multicolorido fazendo uma pose de alguém que venceu, e a mensagem criticada "Autismo não é uma deficiência, é uma habilidade diferente". Abaixo da estampa, a imagem diz: "Por que o autismo é uma deficiência e esta camiseta promove desinformação e capacitismo". Fim da descrição.
Negação das deficiências dos autistas: nunca vista essa camisa
Aviso de conteúdo: Este artigo menciona formas de capacitismo e pode reviver lembranças traumáticas do passado em alguns leitores. Prossiga apenas se tiver segurança de que não sofrerá com traumas ao lê-lo.

Muitos neurotípicos, principalmente pais e mães de autistas, na tentativa de empoderar pessoas neurodiversas, estão disseminando a crença de que "autismo não é uma deficiência, [mas sim] é uma habilidade diferente", com direito a camisetas com essa mensagem.

Preciso dizer que essa mensagem mais nos atrapalha do que nos ajuda. Ela passa uma imagem totalmente errada do que o autismo é e não é e das nossas necessidades e limitações.

Saiba, neste artigo, por que, se você já usou ou ainda usa tal frase com boas intenções, precisa abandoná-la o quanto antes e aceitar que nós autistas somos pessoas com deficiência.

Ao contrário do que a frase diz, autismo é sim uma deficiência

Em primeiro lugar, preciso dizer: o autismo é, de fato, uma deficiência, objetivamente falando.

Nós autistas temos deficiências em âmbitos como a socialização, a compreensão e uso de linguagem não verbal, o processamento sensorial, a regulação das emoções (muitos de nós são propensos a picos de raiva, irritabilidade, tristeza, euforia etc. que temos dificuldade de controlar) e a coordenação motora.

Além disso, é muito comum autistas terem deficiências coexistentes, como o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade), a dislexia, a prosopagnosia (dificuldade ou incapacidade de reconhecer rostos), a discalculia, a intermitência ou ausência da capacidade de falar e, no caso de muitos autistas clássicos, algum grau de deficiência intelectual.

Isso sem falar que autistas clássicos costumam ter dificuldades consideráveis de cuidar de si mesmos e, por isso, necessitam de apoio substancial ou muito substancial.

Tanto é que a Lei Federal nº 12.764/2012 oficializa que nós autistas somos pessoas com deficiência e, portanto, temos os mesmos direitos de qualquer outra pessoa com deficiência.

Também devemos nos lembrar de que a Lei Brasileira de Inclusão (Lei Federal nº 13.146/2015), Artigo 1º, define a pessoa com deficiência como “aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”.

Nós de fato sofremos com a obstrução de nossa participação na sociedade por barreiras, em especial as sensoriais e as sociais capacitistas da sociedade, como falo a seguir.

Nós autistas sofremos com o capacitismo

Outra razão pela qual é nocivo argumentarem que autismo "não é deficiência" é que nós autistas sofremos preconceito e discriminação capacitistas ao longo de nossas vidas.

Nossas capacidades intelectuais, laborais e emocionais, como as de amar, ter empatia, nos preocupar com o próximo, manifestar senso crítico e trazer contribuições de grande importância para o mundo, são muito comumente subestimadas por neurotípicos preconceituosos.

Somos vistos como “doidos”, “doentes”, “incapazes”, “insensíveis”, “grosseiros”, “arrogantes” e “marionetes dos pais” simplesmente por sermos autistas. Somos violentados com bullying, insultos, desincentivos de nossas capacidades, incentivos ao auto-ódio, discriminação em serviços de saúde e outras formas de abuso psicológico ou mesmo violência física.

Muitos de nós são impedidos de se matricular em escolas simplesmente por serem quem são. E mesmo quando a escola ou universidade nos dá “boas vindas”, podemos sair dela com um aprendizado medíocre por causa da ausência de inclusão pedagógica que considere nossas necessidades específicas (por exemplo, de autistas que são superdotados e/ou têm TDAH, dislexia e/ou discalculia).

A maioria das cidades grandes são verdadeiros infernos sensoriais para nós, e em muitos casos andar de ônibus ou trem lotados nos é uma experiência amargamente traumática.

O mercado de trabalho nos exclui sistematicamente, nos trata como incapazes e subestima nosso potencial, com exceções infelizmente raras de empresas que reconhecem e atendem a nossas necessidades específicas e nos permitem aproveitar nossos pontos fortes vocacionais.

Dizer que “autismo não é deficiência” implica dizer que autistas não precisam de acessibilidade e inclusão

Além disso, quando alguém diz que autismo não é uma deficiência, acaba insinuando, por tabela, que autistas sem deficiências coexistentes não precisariam de acessibilidade nem inclusão.

Quando alguém acredita que autistas não são pessoas com deficiência, o pensamento dela implica logicamente que nós não precisaríamos de apoios acessíveis como salas livres de excesso de estímulos sensoriais no ENEM e em concursos públicos, transportes com baixo ruído e sessões de cinema adaptadas.

Também crê que não necessitamos de políticas específicas de inclusão e combate ao capacitismo. Nem de direitos, benefícios e políticas afirmativas como o passe livre e os assentos preferenciais no transporte público, as cotas de pessoas com deficiência e o atendimento prioritário.

Afinal, a condição, por ser essa suposta diferença não deficiente, não acarretaria limitações mediante barreiras sociais e físico-sensoriais, nem nos tornaria suscetíveis à discriminação capacitista.

A crença de que “autismo não é deficiência” invisibiliza os autistas clássicos

Dizer que “o autismo não é uma deficiência” implica também invisibilizar os autistas clássicos, cujas deficiências são ainda mais nítidas e óbvias perante a sociedade como um todo.

Autistas de nível 2 ou 3, como já foi introduzido mais acima, muitas vezes têm sérias dificuldades de cuidar de si mesmos. Comer, vestir-se, fazer xixi e cocô, tomar banho, escovar os dentes, calçar sapatos etc. podem ser enormes desafios para aqueles autistas clássicos que não tiveram intervenção terapêutica que lhes permitisse desenvolver suficientemente essas habilidades.

Além disso, grande parte dos autistas dessas duas categorias possuem deficiência intelectual e/ou não são oralizados. Isso sem falar nas outras também muito presentes deficiências coexistentes.

Quando alguém vem com a crença de que “autismo não é uma deficiência, mas sim uma habilidade diferente”, está invisibilizando perante a sociedade todas essas pessoas e suas dificuldades. Está reduzindo todo o espectro e população autistas àquela pequena parcela que possui as inteligências mais proeminentes e tem o privilégio de ter as devidas terapias de desenvolvimento de habilidades diversas.

Ou seja, essa afirmação é capacitista não apenas por rebaixar as deficiências que os autistas de fato possuem, como também por ignorar e discriminar milhões de autistas de níveis mais substanciais de necessidade de apoio.

Essa crença faz uma falsa e superestimada idealização do que é ser autista

Se por um lado a infame frase invisibiliza e exclui os autistas de níveis 2 e 3, pelo outro ela faz uma falsa idealização superestimada do que é ser autista de nível 1.

Para quem acredita nessa frase, os autistas seriam sempre extraordinariamente inteligentes, superdotados, candidatos a novos Einsteins. O autismo nos seria uma vantagem por nos proporcionar essa falsamente generalizada superinteligência, e não nos traria grandes dificuldades de viver em meio a uma maioria de neurotípicos.

Diante desse estereótipo positivo, tão nocivo quanto os negativos, preciso esclarecer: se por um lado existem de fato muitos autistas muito inteligentes e geniais, por outro essas mesmas pessoas sofrem com todos os já mencionados problemas decorrentes de ser autista numa sociedade capacitista dominada pelos valores sociais neurotípicos.

Até poderíamos viver sendo pessoas simplesmente dotadas de habilidades diferentes se os neurotípicos não nos tratassem com tanto preconceito e exclusão e não nos impusessem tantas barreiras sensoriais e impedimentos nas instituições de ensino e no mercado de trabalho.

Ser autista “leve” numa sociedade assim, ao contrário do que a frase deixa a entender, não é nenhuma maravilha - ou pior, em muitas situações pode ser até infernal.

Usar essa frase é confundir deficiência com doença

Acredito que a pessoa que idealizou tal frase queria dizer que autismo não é uma doença, nem um fardo, nem um fator de inferioridade. 

Se foi isso mesmo, apesar da intenção bonita, ela cometeu um grave erro ao associar deficiência com inferioridade e patologia e, assim, passar uma imagem errada e preconceituosa tanto do autismo quanto das deficiências humanas em geral.

Provavelmente ela acreditou que, para convencer as pessoas de que autismo não é doença, teria que negar também sua condição de deficiência. Isso foi uma péssima ideia, conforme este artigo revelou.

Conclusão

Por todos esses motivos, nós autistas consideramos falsa, preconceituosa, discriminatória e, portanto, seriamente prejudicial a mensagem de que "autismo não é uma deficiência, mas sim uma habilidade diferente".

Autismo é, ao mesmo tempo, uma deficiência e uma habilidade diferente. E as barreiras capacitistas, sensoriais, anti-inclusivas etc. impostas pela sociedade acabam nos inibindo de dar o melhor dessa nossa habilidade diferente e, assim, convertendo-a em uma limitação ou baixa capacidade.

Quando dizem que o autismo "não é deficiência", apagam todas as dificuldades, as negações ou limitações de acessibilidade, o capacitismo, a exclusão social e empregatícia e os traumas que sofremos por sermos quem somos, além de negarem a existência de uma parcela enorme da população autista.

Então, peço a você: evite promover essa mensagem tão equivocada. Não compactue com desinformação capacitista que patologiza as deficiências humanas, invisibiliza nossas atribulações e nega nossa necessidade de acessibilidade, inclusão e políticas afirmativas. Se você já usou essa imagem, por favor, nunca mais use-a novamente, pelo bem dos autistas.

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