terça-feira, 28 de julho de 2020

Por que é preciso abandonar a classificação de autistas por “funcionamento” ou “severidade”

Descrição da imagem #PraCegoVer: No lado superior, estão a expressão "Níveis dos graus" e um gráfico com uma linha em sentido crescente e três divisões intituladas "grau leve", com uma estrela amarela menor, "grau moderado", com uma estrela laranja de tamanho médio, e "grau severo", com uma estrela vermelha maior. Na metade inferior, está a frase "Por que criticamos as classificações do autismo por funcionamento ou severidade". Fim da descrição.

Duas formas muito comuns de se categorizar e diferenciar os autistas são por “funcionamento” e pela “severidade” do autismo.

Só que ambas estão sendo cada vez mais criticadas e repudiadas pela comunidade autista, ao ponto de terem sua substituição defendida.

Saiba, neste artigo, por que um número crescente de neurodiversos se posiciona contra rótulos como “autista de alto funcionamento” e “autismo severo” e que classificação propõe no lugar.

Os problemas de rotular por “funcionamento”

Um alvo comum do nosso repúdio como autistas é o costume de se falar que alguém é autista de “baixo”, “médio” ou “alto funcionamento” ou “funcionalidade”. Existem vários motivos pelos quais somos tão contrários a esse tipo de rotulação.

O primeiro é que ele, por um lado, impõe aos autistas ditos “de alto funcionamento” expectativas elevadas demais - entre elas a de que saibam se comportar como se fossem neurotípicos - e lhes subestima ou ignora as dificuldades e limitações.

E pelo outro, minimiza as reais capacidades e potenciais dos considerados de “médio” ou “baixo funcionamento”. Induz que as outras pessoas esperem de menos deles e acreditem que eles são “incapazes” de, por exemplo, se comunicar bem - oralmente ou por meios alternativos - ou produzir grandes feitos intelectuais.

Além disso, desconsidera que muitos autistas variam no “nível de funcionamento”. Por exemplo, um autista pode ser de “alto funcionamento” quando recebe a devida assistência inclusiva, produzindo, por exemplo, ótimas pesquisas acadêmicas. Mas pode se tornar temporariamente alguém que considerariam de “baixa funcionalidade” quando está sobrecarregado ou submetido a maus tratos ou estímulos sensoriais nocivos, não conseguindo falar, se locomover com precisão ou manifestar ideias compreensivelmente.

Também pode acontecer de um autista como Naoki Higashida, tido por muitos como de “baixo funcionamento”, escrever um livro bem-sucedido e se expressar bem com recursos de comunicação alternativa, ao mesmo tempo que precisa de ajuda para, por exemplo, comer, urinar, defecar, tomar banho e trocar de roupa.

Outro motivo é o caráter objetificador do próprio termo “funcionamento”. Afinal, quando rotulam o indivíduo com essa classificação, parecem estar comparando-o com uma máquina que ou pode estar “funcionando muito bem” ou ser “defeituosa”, “quebrada”.

A crítica à classificação do autismo como “leve”, “moderado” ou “severo”

A categorização do autismo e dos autistas por “severidade” também está sendo cada vez mais criticada e rechaçada.

Um dos motivos é que dizer que o autismo é “leve”, “moderado” ou “severo” é abordá-lo como se fosse algo comparável a uma doença.

Afinal, o que se considera “brando” ou “grave” geralmente é uma patologia, não uma deficiência. Essa rotulação deriva diretamente da triste tradição da patologização do autismo pela comunidade médica e neurocientífica.

Outra razão é que, ao contrário do que muitos pensam, não existe nenhuma classificação oficial do autismo por “gravidade”. Ou seja, essa rotulação não consta nem no CID (Código Internacional de Doenças e Transtornos), nem no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).

Aliás, a categorização feita por esse segundo manual desde 2013 é a que tem sido defendida como a mais correta, ética e útil para os autistas.

O que é defendido para substituir essas duas rotulações

Descrição da imagem #PraCegoVer: Do lado esquerdo, a palavra autismo em caixa-alta. Do lado direito, as três classificações mais comuns de autismo, que dizem "de baixo, médio ou alto funcionamento", "leve, moderado ou severo" e "por necessidade de apoio". As duas primeiras aparecem riscadas com X, enquanto só a última aparece sem nenhum risco. Fim da descrição.

A tipificação feita pelo DSM-5, a qual nós apoiamos no lugar das outras mencionadas, é o nível de necessidade de apoio.

Por meio dela, os autistas tradicionalmente rotulados como “leves”, “de alto funcionamento” ou “aspies” são autistas de nível 1, que precisam de algum apoio para as suas necessidades. Os antes considerados “moderados” ou “de médio funcionamento” são de nível 2, que precisam de apoio substancial, mais intensivo do que os do primeiro nível. E os que eram chamados de “severos” ou “de baixo funcionamento” são de nível 3, que necessitam de apoio muito substancial, mais constante do que os dos dois outros níveis.

A classificação por necessidade de suporte é muito mais voltada para a nossa qualidade de vida e felicidade do que as por “severidade” ou “funcionamento”. Essas últimas, pelo contrário, costumam ser focadas no quanto o autismo, segundo o olhar capacitista, nos “prejudica”, nos “incapacita” e nos torna “menos” ou “mais autistas” e mais ou menos “próximos” do padrão neurotípico.

Ou seja, a primeira foca em nós e no que precisamos para viver bem, enquanto as outras só vislumbram a condição em si, de maneira pejorativa, como se ela fosse uma patologia e demandasse tratamentos para ser minimizada.

Conclusão

Se você ainda rotula cada um de nós autistas como mais ou menos “funcionais” ou “severos”, convidamos você a substituir essas classificações pela que leva em consideração o nosso nível individual de necessidade de apoio.

Essa é a única que realmente nos beneficia, ao invés de focar no quanto nossa neurodivergência é mais ou menos “grave” e “prejudicial” para nós. Portanto, a única que não incorre numa visão capacitista de quem somos.

Mudando a forma de nos categorizar em função do autismo, você muda uma parte da maneira como nos vê e nos trata e, por tabela, diminui o capacitismo dessa sociedade que reluta em nos aceitar, nos incluir e nos tratar bem.