terça-feira, 30 de abril de 2019

Além de autista, tenho TDAH. Saiba mais sobre essa condição tão frequente entre autistas


Depois de ser aconselhado por um colega de um grupo de aspies do Face, eu fiz pelo menos seis testes online* e, diante dos resultados de todos eles, cheguei a uma importante conclusão: eu tenho - ou no mínimo tenho probabilidades muito elevadas de ser diagnosticado com - o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) do tipo misto ou combinado.

Ou seja, tenho com intensidades semelhantes as dificuldades de atenção e concentração e a hiperatividade. No meu contexto, o TDAH é uma condição coexistente à Síndrome de Asperger - e a combinação Asperger+TDAH é frequente entre aspies.

O que é o TDAH?


O que é o TDAH, afinal de contas? É uma condição caracterizada sobretudo pela enorme dificuldade na concentração e na manutenção da atenção em muitas situações de âmbito pessoal/social e profissional/educacional. 

Essa dificuldade pode ser acompanhada ou não pela hiperatividade, ou seja, um estado neuropsicológico marcado por agitação, inquietude e humor instável quase constantes e dificuldade crônica de parar pra descansar propriamente e tirar um tempo - mesmo que umas poucas horas do dia - pra si mesmo.

E o mais importante: a pessoa não pode controlar os sintomas dessa condição apenas pela força de vontade. 

É estritamente necessário que ela obtenha a devida ajuda profissional especializada - o que infelizmente é raro de se obter no Brasil, já que são pouquíssimos os psicólogos, neuropsicólogos, psiquiatras e outros profissionais de saúde que entendem plenamente de autismo “leve” combinado com TDAH em adultos, e geralmente esse número tão reduzido de terapeutas cobra caro por consultas particulares e não é conveniado com planos de saúde.

Sintomas do TDAH


Uma lista relativamente abrangente de sintomas do TDAH pode ser lida no site do Instituto Paulista de Déficit de Atenção. No meu caso, eu me identifiquei com os seguintes sintomas listados nessa página:
  • Desvia facilmente a atenção do que está fazendo e comete erros por prestar pouca atenção a detalhes (no meu caso, felizmente isso é muito minimizado pelas múltiplas revisões de texto e de diagramação que faço nos meus artigos e livros e também pelo meu hiperfoco e minha experiência já robusta e na escrita);
  • Muitas vezes distrai-se com seus próprios devaneios ou então um simples estímulo externo tira a pessoa do que está fazendo;
  • Dificuldade de concentração em palestras, aulas, leitura de livros... Dificilmente termina um livro, a não ser que o interesse muito;
  • Às vezes parece não ouvir quando o chamam. Muitas vezes é interpretado como egoísta ou desinteressado;
  • Durante uma conversa pode distrair-se e prestar atenção em outras coisas, principalmente quando está em grupos. Às vezes capta apenas partes do assunto ou enquanto "ouve" já está pensando em outra coisa e interrompe a fala do outro;
  • Dificuldade em iniciar e finalizar tarefas que exijam esforço mental e atenção focada por muito tempo;
  • Sente sonolência e sensação de estar "desligando", especialmente quando precisa se concentrar (isso acontece muito quando tento ler livros em bibliotecas e livrarias, precisando tomar muito café pra deter a sonolência);
  • Dificuldade em seguir instruções, mesmo quando se propõe. Inicia bem e logo em seguida muda, fazendo de outro jeito ou deixando de lado;
  • Pensa em fazer uma coisa e logo em seguida esquece o que iria fazer. Por exemplo, quando vai buscar algo, pelo meio do caminho esquece (ocasionalmente, no meu caso);
  • Problemas com planejamento do tempo. Perde a noção da passagem do tempo. Pode sentir que o dia tem 48 horas ou que passou muito mais rápido do que pensava;
  • Forte agitação e inquietação - em adultos, agitação mental é mais comum;
  • Inquietação – mexer as mãos e/ou pés quando sentado, musculatura tensa, com dificuldade em ficar parado num lugar por muito tempo. Costuma ser o "dono" do controle remoto;
  • Faz várias coisas ao mesmo tempo, está sempre a mil por hora, em busca de novidades, de estímulos fortes. Detesta o tédio. Parece que não se contenta com uma coisa apenas, especialmente coisas mais simples e menos estimulantes (no meu caso, isso é relativo, já que não curto praticar esportes nem lazeres que envolvam muita adrenalina);
  • Sem filtro ao se expressar. Fala sem pensar, causando situações constrangedoras e até mesmo ofensivas (tenho um amplo histórico de situações do tipo, e inclusive essa é uma das razões pelas quais eu tenho menos carisma e mais dificuldade de conquistar público, enquanto influenciador vegano, do que os que são mais bem-sucedidos e tratam de temas similares aos meus);
  • Impaciência: não suporta esperar ou aguardar por algo: filas, telefonemas, atendimento em lojas, restaurantes... quer tudo para "ontem" (no meu caso, na maioria das vezes recorro a assistir vídeos ou ouvir música no celular ou no tablet pra aguentar a espera);
  • A comunicação costuma ser compulsiva, sem filtro para inibir respostas inadequadas, o que pode provocar situações constrangedoras e/ou ofensivas: fala ou faz e depois pensa (tenho um amplo histórico de situações do tipo, que se somam ao sintoma “Sem filtro ao se expressar”);
  • Pode falar, comer, comprar etc. compulsivamente e/ou sobrecarregar-se no trabalho. Muitos acabam estressados, ansiosos e impacientes: são os workaholics (costumo comer muito no almoço e tenho imensa dificuldade de parar de pensar só no meu trabalho);
  • Tendência a sobrecarga, exaustão e compulsividade (em adultos), risco de abuso de álcool, drogas, jogos, Internet e redes sociais [o texto original, provavelmente antigo, menciona “salas de bate-papo”, algo típico dos anos 90 e da primeira metade da década de 2000] etc. (no meu caso, felizmente abomino drogas e jogos de azar, mas tenho dificuldades de moderar o uso das redes sociais e substituir o tempo que eu gasto nelas em ociosidade por hábitos mais saudáveis, como ler livros e caminhar. Além disso, preciso exercer um enorme esforço mental, quando estou num sebo com muitos livros baratos, pra não gastar centenas de reais de uma só vez ali, com livros cuja maioria eu vou demorar anos pra começar a ler ou sequer tenho certeza de que vou ler um dia);
  • Baixo nível de tolerância: não sabe lidar com frustrações, com erros (nem os seus, nem dos outros). Muitas vezes sente raiva e se recolhe;
  • Instabilidade de humor: ora está ótimo, ora está péssimo, sem que precise de motivo sério para isso (não costumo ter raiva de pessoas, mas situações envolvendo, por exemplo, erros de computador e frustração de expectativas me causam emoções negativas mais intensas do que eu gostaria de sentir. Tanto é que as baixas vendas do meu primeiro livro, em 2017, foram decisivas pra minha depressão ter começado em maio daquele ano).

Como a condição tem prejudicado minha vida social e profissional, em conjunção com a Síndrome de Asperger


É por causa desse conjunto de sintomas, em combinação com a Síndrome de Asperger, que, infelizmente, tenho enfrentado problemas que a maioria dos neurotípicos que seguem as mesmas vocações profissionais que eu não têm ou sofrem pouco. Por exemplo:
  • Não consegui assimilar um bom aprendizado nos cursos de graduação que eu fiz, a ponto de hoje não ter condições de me habilitar profissionalmente pros empregos aos quais eles formam seus alunos. As notas majoritariamente boas que tirei neles foram uma ilusão, mascararam as sérias dificuldades que tive de prestar atenção nas aulas, absorver e fixar o que era ensinado nas disciplinas e me sentir verdadeiramente estimulado e interessado em estudar sem a coerção das provas e seminários. Em todas as vezes em que estudei por obrigação pra avaliações, por mais admirável que fosse minha nota, todo o conhecimento obtido no estudo se perdia horas ou poucos dias depois. Precisarei de anos de estudos autodidáticos, além de um ambiente de estudos e leituras suficientemente confortável, pra enfim ter condições plenas de fazer o tão desejado mestrado sociológico e trabalhar profissionalmente com Sociologia e com Meio Ambiente;
  • Tenho dificuldades enormes envolvendo carisma. Tanto é que as páginas do Veganagente nas redes sociais, além do blog em si, conquistam seguidores muito mais lentamente do que a maioria das páginas e sites que trabalham com temas semelhantes. Isso também acaba sendo uma das causas pelas quais a maioria das pessoas não se sente estimulada a me apoiar via APOIA.se;
  • Minha “língua ferina” típica do Asperger+TDAH já queimou diversas pontes que poderiam render parcerias de trabalho;
  • Meus dois antigos vlogs (Consciencia.VLOG.br e Canal Veganagente) nunca tiveram sucesso real, devido às minhas dificuldades de comunicação não escrita - as quais, na época deles, eu achava que eram apenas questão de praticar oratória e não sabia que eram devidas à dupla deficiência Asperger+TDAH;
  • Minhas dificuldades de usar e entender comunicação não verbal (contato visual, postura, gesticulações com as mãos, expressão facial, modulação da voz, mensagens sutis escondidas nas entrelinhas de muitas falas etc.) e meu déficit de habilidades sociais limitam severamente que eu cative boa parte das pessoas, tanto nos coletivos sociopolíticos que tentei integrar quanto em palestras ministradas por mim. Nesse caso, o capacitismo velado dos neurotípicos também é decisivo pra aumentar essa frustração na comunicação social entre eu e eles;
  • Meu networking profissional e de causas sociais é muito menor do que o dos neurotípicos, e tenho dificuldades imensas de ampliá-lo;
  • Meu currículo é muito reduzido, e não consigo ter o interesse pleno de fazer cursos gratuitos que o reforcem. Já tentei forçar em mim esse interesse, mas deu muito errado;
  • entre diversas outras dificuldades que limitam seriamente o sucesso do meu trabalho.
Tão logo esteja com as energias mentais devidamente recarregadas e volte a escrever regularmente no Consciência Autista, usarei este espaço para falar como é ser autista aspie com TDAH.

Conclusão


Acredito que agora muitos de vocês que me seguem aqui sabem por que tenho tido tanta dificuldade de decolar profissionalmente, encontrar empregos compatíveis com meus pontos fortes e minhas dificuldades e conquistar o coração da maioria das pessoas às quais meus conteúdos se dirigem.

Com isso, agora posso dizer que tenho deficiência dupla, no âmbito do neurodesenvolvimento, das relações sociais e da compreensão de linguagem não verbal: autismo “leve” e TDAH.

E também digo que, de agora em diante, incluirei essa segunda condição na minha luta em defesa da neurodiversidade, do modelo social do autismo e do respeito e inclusão plenos aos autistas, às pessoas que têm TDAH e àquelas que possuem ambas as condições.

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*Os testes online não têm caráter diagnóstico, mas dão pistas muito importantes sobre se a pessoa tem ou não a condição testada. E ao meu ver, quando vários (pelo menos uns quatro) testes do tipo sobre a condição específica posta em avaliação têm resultados convergentes, a probabilidade de eu ter aquela condição - quando o seu conjunto de características/sintomas não corresponde a outras condições - tende a 100%, ou no mínimo mais de 90%.

Obs.: A tentativa de tirar férias e recarregar minhas energias para voltar a escrever regularmente ainda não acabou. Com isso, ainda estou sem condições de retomar a escrita regular e frequente.