domingo, 27 de outubro de 2019

Como o que eu vivi exemplifica o quanto é necessário as universidades incluírem autistas e pessoas com deficiências de aprendizagem

Dificuldades de socialização e aceitação restrita: sérios problemas pelos quais autistas passam, mas as universidades e faculdades não estão prontas para tratar. Descrição da imagem #PraCegoVer: Uma mulher ruiva aparece triste no canto esquerdo da foto, sendo vista à distância por um grupo de quatro outras mulheres, que lhe haviam negado interação social. Fim da descrição.
Dificuldades de socialização e aceitação restrita: sérios problemas pelos quais autistas passam, mas as universidades e faculdades não estão prontas para tratar

Aviso de conteúdo: Este artigo contém relatos de capacitismo e exclusão. Leia-o apenas se estiver seguro de que não irá sofrer gatilhos de traumas.

As universidades brasileiras atualmente são instituições cheias de obstáculos para os seus alunos autistas, com TDAH e/ou com deficiências de aprendizagem.

Foi por causa dessas barreiras que, nos dois cursos de graduação que eu concluí, eu não consegui obter aprendizado e vivência suficientes para me qualificar profissionalmente e avançar para o mestrado e, antes deles, eu fui levado a desistir rapidamente de outro.

Neste artigo eu conto como, em função de minhas necessidades não terem sido reconhecidas e respeitadas, eu fui privado de me profissionalizar em três áreas de conhecimento.

E quero, a partir deste relato, deixar um alerta para as instituições de ensino superior e profissionalizante, sobre a urgente necessidade de acolher e incluir alunos - e também professores e técnico-administrativos - não neurotípicos.


1. Jornalismo na UFPE (2005): de primeiro no vestibular a desistente em poucos meses


Centro de Artes e Comunicação, onde fica o curso de Jornalismo na UFPE. Descrição da imagem #PraCegoVer: A fachada do Centro de Artes e Comunicação da UFPE, onde fica o curso de Jornalismo dessa universidade. O prédio tem apenas dois andares, tem fachada de concreto, portões de entrada de vidro, árvores e assentos no seu pátio externo. Fim da descrição.
Centro de Artes e Comunicação, onde fica o curso de Jornalismo na UFPE

Quando eu passei em primeiro lugar no curso de Comunicação Social/Jornalismo no Vestibular 2005 da UFPE, foi uma das mais felizes comemorações da minha vida.

Por não saber da minha condição neurodiversa, eu acreditava que teria uma passagem muito próspera no curso, com grandes amizades, muitas prazerosas viagens de visita técnica, aprendizados formidáveis e, finalmente, diplomação como um competente jornalista.

Empolgado para virar um famoso colunista de algum grande portal de notícias no futuro, eu acreditei, por alguns meses, que o jornalismo era excelente para mim.

Só que nenhum desses sonhos se realizou. Pelo contrário, foram meses muito sofridos.

Em primeiro lugar, eu tinha dificuldades imensas de me entrosar com os colegas do curso. Até andei com uma panelinha de quatro colegas, que eram muito gente boa, simpáticos e bondosos comigo e me viam de fato como um amigo, mas eu não conseguia me sentir parte definitiva do grupo. Não conseguia bater papo de maneira fluida, natural e descontraída com eles, nem puxar assuntos.

nas aulas, eu tinha muita dificuldade de prestar atenção para aquelas explanações expositivas. Não conseguia gostar de ler artigos acadêmicos e capítulos de livros de Humanidades. Eu era tão desacostumado com leituras do tipo que não conseguia prosseguir mais do que uma dúzia de páginas em nenhuma xerox que havia adquirido.

Para piorar, eu estava sofrendo o auge da Síndrome de Tourette. Sem diagnóstico nem medicação, meus tiques disparavam todos os dias, me fazendo parecer estar sob pesado efeito colateral de algum remédio de tarja preta e me impedindo até mesmo de me esforçar em prestar atenção na fala dos professores.

E nas minhas últimas semanas naquele curso, tive uma paixão não correspondida por uma colega. Ela simplesmente era gentil e simpática comigo e me via como um ótimo colega.

Mas eu, com dificuldades enormes de interpretar linguagem não verbal (postura corporal, tons de voz, contato visual, expressão facial, gesticulação manual, sentidos implícitos na fala etc.), acreditava que a atitude bondosa dela para comigo seria sinal de reciprocidade romântica.

Apesar de todos esses problemas que algum psicólogo, psicopedagogo ou professor de apoio especializado em espectro autista e deficiências invisíveis facilmente perceberia, naquele curso eu não tive absolutamente nenhum suporte para deficiência de neurodesenvolvimento.

Não havia ninguém especializado lá para quem eu pudesse revelar que não conseguia aprender a ler livros de linguagem humanística intelectualizada e pedir ajuda. Para quem eu contasse que, por mais que me esforçasse, não conseguia me socializar direito com meus colegas.

Nem mesmo ninguém que, percebendo meus problemas, me encaminhasse para atendimento urgente e prioritário na clínica-escola de Psicologia da UFPE ou no Hospital das Clínicas da mesma universidade.

Eu estava ali sendo tratado como se fosse um neurotípico com cérebro “quebrado”. Ou melhor, como alguém que tentava ser neurotípico à força, mas fracassava tristemente. Parecia um cadeirante tentando se forçar a subir com as pernas a escada de um prédio sem nenhuma acessibilidade.

Em determinado momento, me vi à beira de uma depressão. Até ideação suicida eu tive, durante uma ida a uma biblioteca com os colegas da panelinha na qual tentei me enturmar.

A minha experiência foi tão desastrosa, tão submetida à exclusão e inacessibilidade institucionais, que, em 20 de junho de 2005, 63 dias depois do início daquele primeiro período, eu desisti do curso de Jornalismo da UFPE.

O estopim que me levou a abandoná-lo, depois de tanto sofrimento, foi ter me declarado à colega mencionada e ter recebido rejeição amorosa, ainda que de maneira respeitosa, como resposta.


2. Gestão Ambiental no Cefet-PE (2006 a 2008/2009): concluí o curso, mas não me capacitei nem me identifiquei


Antigo Cefet-PE, atual IFPE Campus Recife. Descrição da imagem #PraCegoVer: Parte do interior do antigo Cefet-PE, atual IFPE Campus Recife. A foto mostra um lago, algumas árvores, um poste de luz, alguns corredores e dois dos blocos da instituição. Fim da descrição.
Antigo Cefet-PE, atual IFPE Campus Recife

Em janeiro de 2006, passei no vestibular do curso de Tecnologia em Gestão Ambiental, no então Cefet-PE, atual IFPE Campus Recife, mesma instituição onde eu havia feito o Ensino Médio entre 2001 e 2003.

Entre abril de 2006 e fevereiro de 2009 (fim do semestre letivo 2008.2), eu tive uma experiência mais amigável do que no efêmero curso anterior. Facilitou isso o fato de que eu já tomava medicamento contra os tiques - Orap na época.

Mas infelizmente não obtive um bom proveito profissionalizante, conforme relato mais adiante. E também houve vários percalços sérios em função da minha neurodivergência perante os meus colegas de turma, os estudantes das outras turmas do curso e alguns professores.

Eu tive um amigo, com quem andava pelo instituto e conversava nos dias em que ele estava presente. O problema é que, por motivo de trabalho, ele conseguiu autorização da coordenação do curso para faltar em todas as disciplinas além do limite tolerado.

Daí, em grande parte dos dias, eu ficava sozinho e à deriva, com interações bastante limitadas e tentativas malsucedidas de entrosamento com meus colegas.

Não conseguia me interessar nas conversas deles sobre o cotidiano, futebol e ritmos musicais populares da época (forró estilizado, swingueira e brega). Manifestava um desconforto enorme em viagens de visita técnica em que colocavam esses estilos para tocar no ônibus - exceto quando eu ouvia rock, com fone de ouvido, no discman que eu tinha.

Era visivelmente desajeitado ao falar com as colegas mais bonitas e simpáticas. Era tratado com antipatia, discriminação e repreensões por algumas outras colegas, das quais eu não sabia me defender verbalmente, incluindo uma de outra turma que gostava de me humilhar.

Manifestava em sala de aula meu hiperfocado repúdio à Cargill, corporação denunciada pelo Greenpeace na época por colaborar com o desmatamento da Amazônia. Falava mal dela numa maneira e frequência que incomodavam boa parte dos colegas, o que também aconteceu quando, a partir de agosto de 2007, eu falava das razões éticas e ambientais de ser vegetariano.

Além disso, fazia perguntas um tanto desafiantes para grupos que apresentavam seminários. Mas por outro lado, não conseguia aprender praticamente nada a partir das aulas, nem me interessar em me aprofundar nos assuntos ensinados.

O meu comportamento autístico mais imprudente e perigoso foi quando, na comunidade da turma no extinto Orkut, em 2007, publiquei um tópico falando mal de um dos professores e criticando sua maneira de dar aula.

Não tinha a noção de que criticar professores num espaço público é algo malquisto e considerado antiético. Aquilo me rendeu uma ameaça de processo por parte daquele professor e uma convocação, por ele e pelo então coordenador do curso, para eu dar explicações e me retratar.

Essa forma como os dois responderam à minha atitude exemplificou o quanto não havia preparo institucional nenhum para se incluir estudantes autistas no então Cefet-PE.
Isso ficou evidenciado também pelo fato de não ter havido lá:
  • Nenhuma assistência psicológica e psicopedagógica para pessoas neurodiversas;
  • Nenhum professor que reconhecesse comportamento autísticos e deficiências de aprendizagem e encaminhasse o aluno à devida avaliação diagnóstica e a um acompanhamento psicoterapêutico, psiquiátrico e terapêutico ocupacional;
  • Nenhum recurso para proteção do aluno autista contra estímulos sensoriais nocivos;
  • Nenhuma campanha de conscientização orientada no modelo social do autismo;
  • Nenhuma consciência, por parte dos docentes, de se adaptar sua didática para alunos neurodivergentes e/ou com dificuldades de acompanhar as aulas de métodos tradicionais.
O resultado dessa carência de inclusão foi que, apesar de ter conseguido me formar, eu não obtive aprendizado profissional. Aliás, por causa disso e de outros motivos, no antepenúltimo semestre do curso eu já não me identificava mais com a vocação de gestor ambiental.

O resultado é que o meu diploma de Gestão Ambiental não tem quase nenhum valor prático. Nunca elevou minhas chances de me encaixar no mercado de trabalho.

Nem mesmo me deu plenas condições de fazer mestrado em Meio Ambiente. Afinal, quando fiz a seleção para essa pós-graduação na UFPE, em 2010, eu tirei a pior nota na etapa da prova escrita entre todos os candidatos - 1,4 de 10 pelo que eu lembro.

O único legado positivo que eu tenho daquele curso é o meu desejo, até hoje nunca concretizado, de estudar autodidaticamente Meio Ambiente e Sociedade, Educação Ambiental e outros temas que interseccionam a temática ambiental com as Humanidades.


3. Ciências Sociais na UFPE (2009 a 2016): identificação sem a devida profissionalização


Centro de Filosofia e Ciências Humanas, onde fica o curso de Ciências Sociais na UFPE. O edifício do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, onde fica o curso de Ciências Sociais na UFPE. O prédio é alto, com quinze andares, e tem em sua fachada corredores com varanda e cobogós (paredes permeáveis com muitos orifícios) vermelhos. Fim da descrição.
Centro de Filosofia e Ciências Humanas, onde fica o curso de Ciências Sociais na UFPE

Em fevereiro de 2009, eu comecei as minhas aulas no Bacharelado em Ciências Sociais na UFPE. Depois de quatro anos de passagens por cursos com os quais não havia conseguido me identificar, finalmente descobri aquela área de conhecimento com a qual eu tenho reais afinidades.

Porém, houve muitas atribulações, algumas das quais quase me fizeram desistir do curso. E no final das contas, assim como aconteceu em GA, em CS eu me graduei sem ter me profissionalizado e, portanto, sem aptidão para trabalhar como cientista social ou professor de Sociologia.

Assim como nos outros dois cursos, eu passei aqueles sete anos (de bacharelado incompleto e licenciatura) sendo tratado como se fosse um neurotípico problemático. Recebi zero suporte inclusivo. Aliás, ninguém lá me reconheceu como neurodiverso - nem os professores, nem os colegas de turma, nem os técnico-administrativos e, por falta de conscientização, nem eu mesmo.

Essa silenciosa e disfarçada exclusão se manifestou das mais diversas maneiras. Primeiramente, nenhum professor utilizava métodos de ensino que considerassem alunos neurodivergentes.

A imensa maioria era didaticamente muito conservadora e recorria aos tradicionais métodos de aula expositiva, apresentação de seminários por alunos e provas escritas. E mesmo os que tentavam inovar não conseguiam conquistar minha atenção e me proporcionar a devida aprendizagem.

Também não havia ninguém capacitado para ensinar métodos de estudo de Humanidades para pessoas com dificuldades. Eu fui, na prática, indiretamente obrigado a estudar livros e capítulos xerocados de um jeito que não me rendeu quase nenhuma fixação de conteúdo - uma maneira ineficaz até mesmo para a maioria dos neurotípicos.

Para piorar, pelo menos duas vezes eu passei mal, por sobrecarga sensorial, em reuniões nas escolas onde eu atuei como bolsista de iniciação à docência. E uma professora de Sociologia, durante uma carona que me deu para casa, subestimou e desincentivou meu interesse pelas Ciências Sociais ao ponto de ter me induzido a quase abandonar o curso.

No mais, todos os aspectos da ausência de inclusividade que mencionei em relação ao curso de GA se repetiram em CS.

E não só a instituição era excludente e ignorava a existência de alunos autistas, como também parte dos meus colegas do bacharelado, totalmente ignorantes sobre Síndrome de Asperger em adultos, me tratavam como se fosse um neurotípico antiético.

Afinal, era relativamente frequente me repreenderem duramente por meus comportamentos autísticos e tentarem até mesmo inibir stims meus como balançar as pernas. Por não saberem que eu sou autista nem entenderem nada sobre neurodiversidade, não respeitavam minha neurodivergência.

Complementa esses percalços de socialização o fato de que eu não conseguia interagir de igual para igual quando os bacharelandos iam aos bares próximos da universidade para beber e conversar. Eu sempre me sentia deslocado, desencaixado, com a impressão de que estava ali por uma obrigação sutil, nunca por prazer.

Já na licenciatura, eu andava isolado na maior parte do tempo. Também não conseguia me entrosar com os colegas. No máximo os cumprimentava, era respondido com gentileza e conversava com alguns deles por poucos minutos.

Já em relação ao curso em si, nem as disciplinas de Sociologia, nem as de Pedagogia da licenciatura incluíam temas relativos a pessoas com deficiência e ensino inclusivo, exceto algumas possíveis menções esparsas feitas por professores.

Em momento nenhum os docentes e suas disciplinas sociológicas incentivaram a mim e a outros colegas a estudar sobre capacitismo, acessibilidade e inclusão, modelo médico e modelo social das deficiências e outros conceitos sociológicos ligados à causa das pessoas com deficiência.

Em resumo, ficou a impressão de que, para o curso de Ciências Sociais, autistas e pessoas com outras deficiências invisíveis não existem ou não são capazes de entrar na universidade.

O resultado foi que eu:
  • Tranquei o bacharelado duas vezes (nos semestres 2010.2 e 2011.2) e tentei trocar de curso nessas duas ocasiões;
  • Me transferi para a licenciatura em 2012.1;
  • Quase desisti do curso em 2013.2;
  • Tive um aprendizado muito medíocre, apesar das minhas ilusórias notas altas;
  • Me formei em 2016.1 sem o conhecimento profissional necessário para fazer mestrado ou trabalhar como professor e/ou sociólogo;
  • Na minha tentativa de entrar para o mestrado de 2019 em 2018, fui eliminado já na primeira etapa, a de avaliação do pré-projeto de dissertação.

Como IFPE e UFPE estão hoje, em se tratando de inclusão de autistas


A Resolução 11/2019 é um marco muito importante para a inclusão dos autistas e pessoas com outras deficiências invisíveis na UFPE. Descrição da imagem #PraCegoVer: Print do cabeçalho da Resolução 11/2019, mostrando o brasão da UFPE e os dizeres "Universidade Federal de Pernambuco, Conselho Universitário, Resolução número 11 de 2019, Ementa: Dispõe sobre o atendimento em acessibilidade e inclsão educacional na Universidade Federal de Pernambuco". Fim da descrição.
A Resolução 11/2019 é um marco muito importante para a inclusão dos autistas e pessoas com outras deficiências invisíveis na UFPE

Hoje em 2019, enfim vejo passos para a frente sendo dados pelas duas instituições. Depois de anos sendo tratados como se fossem inexistentes ou neurotípicos “defeituosos”, os autistas e pessoas com TDAH ou outras deficiências de aprendizagem estão finalmente começando a ser considerados e incluídos pelas políticas de ambas.

O IFPE está dando ótimos passos rumo à implementação de uma política inclusiva para essas pessoas. Isso pode ser atestado pela realização de palestras sobre o espectro autista, pela presença nominal dos autistas em ementas de disciplinas como Fundamentos da Sociologia no curso de Radiologia e Relações Interpessoais no de Design Gráfico, a menção à nossa proteção em projetos pedagógicos como o da Licenciatura em Computação no Campus Afogados da Ingazeira, semanas de conscientização que defendem a inclusão dos alunos autistas etc.

E a UFPE também tem avançado, por meio da Resolução nº 11/2019, publicada em setembro deste ano, que promove as esperadas acessibilidade e inclusão educacional dos estudantes com essas deficiências, e a previsão dessa mesma política no Plano de Desenvolvimento Institucional 2019-2013 e no público-alvo do Núcleo de Acessibilidade.

Mas ainda tem muito a avançar, já que hoje é raro, se não inexistente, alguma disciplina incluir o autismo e o tratamento social dos autistas em suas ementas disciplinares. Essa ausência é percebida atualmente em cursos que teoricamente têm muita afinidade com esses temas, como o bacharelado e a licenciatura em Ciências Sociais, Pedagogia, Medicina, Psicologia, Fonoaudiologia e as pós-graduações em Direitos Humanos, Psicologia, Psicologia Cognitiva, Saúde da Criança e do Adolescente, Saúde da Comunicação Humana e Sociologia.


Conclusão


Minha história de vida em instituições de ensino superior exemplifica o quanto é traumático estudar em uma universidade ou faculdade que não reconhece nem acolhe as necessidades específicas dos alunos autistas, com TDAH, com dislexia etc.

Felizmente as duas em que estudei entre 2005 e 2016 estão, pouco a pouco, deixando no passado essa sombria tradição de exclusão de estudantes com deficiências invisíveis. Mas ainda há muito a caminhar rumo a um futuro ideal em que a inclusão seja completa e não deixe mais nenhum aluno para trás.

Fica a lição: é muito urgente a nossa demanda pela implementação e cumprimento de políticas de educação inclusiva nessas instituições. Sem elas, muitos estudantes literalmente sofrem horrores e veem seus sonhos de capacitação intelectual e prosperidade no mercado de trabalho se transformarem em severos pesadelos.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

1 ano de Consciência Autista: as intensas vivências e aprendizados que juntei ao longo desse período de grande evolução

Um ano do blog Consciência Autista, com muito trabalho pelo respeito à neurodiversidade e pelo fim do capacitismo contra autistas. Descrição da imagem #PraCegoVer: O símbolo da neurodiversidade autista, que é um sinal de infinito colorido com o gradiente espectral de cores, o nome "Consciência Autista" e o lema "Um ano de conscientização e luta pela aceitação e inclusão da neurodiversidade". Fim da descrição

Na semana passada, o Consciência Autista completou um ano de fundação. E que ano!

Desde 9 de outubro de 2018, eu tive o prazer de incrementar, num ritmo praticamente exponencial, meu conhecimento sobre autismo e neurodiversidade, as necessidades e demandas da comunidade autista e o capacitismo e psicofobia contra nós autistas.

E não só isso, como também recebi, tanto em minha vivência como por meio de muitas leituras, muitas poderosas “injeções” de conscientização e incentivos à indignação perante o quanto a sociedade é cruel e discriminatória contra nós.

Eu aproveito este primeiro aniversário do blog para listar um pouco do que eu vivi e aprendi nesses 365 dias de consciência neurodiversa cada vez mais forte, e como esse vasto aprendizado será precioso para o crescimento deste site e do meu ativismo autista como um todo.

Uma abrangente amostra do que eu vivenciei e aprendi ao longo desse primeiro ano do blog

Eis uma abrangente amostra, não estando em ordem cronológica, das minhas experiências e aprendizados de vida que tive entre outubro do ano passado e outubro deste ano:
  • Lancei no Facebook a minilivraria do Consciência Autista, com dezenas de títulos afiliados à Amazon à venda;
  • Descobri, induzido à devida pesquisa pela resposta de um colega de um grupo de autistas no Facebook a um tópico meu, que é quase certo que eu tenho Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) do tipo Combinado, como uma das minhas condições coexistentes ao autismo nível 1;
  • Essa descoberta me revelou o verdadeiro porquê de, apesar de ter conseguido me formar em Gestão Ambiental e Ciências Sociais, eu não ter conseguido adquirir aprendizado suficiente para me capacitar profissionalmente nessas duas áreas. Nem o IFPE (onde cursei GA) nem a UFPE (onde fiz CS) possuem políticas de inclusão plena de alunos autistas e com outras deficiências invisíveis que interferem na aprendizagem perante os métodos didático-pedagógicos mais comuns no Ensino Superior;
  • Nos dois meses que passei de visita em São Paulo com minha namorada, senti na pele os sofrimentos de um autista nível 1 que não tem (ou, no meu caso, não tinha) acesso a tratamentos da hipersensibilidade sensorial e do fluxo excessivo de pensamentos e preocupações. Sofri sobrecarga sensorial várias vezes em bairros como Sé, Vila Mariana, Barra Funda e Pompeia, por causa de estímulos como os horríveis ruídos automotivos, os fortes odores da poluição atmosférica e as incômodas aglomerações em estações como Luz, Palmeiras-Barra Funda, Sé e Brás. Nem os passeios em confortáveis parques como o Ibirapuera, o da Aclimação e o Raphael Lazzuri (em São Bernardo do Campo, perto da UFABC) conseguiram acalmar os turbilhões de pensamentos que tinha com frequência;
  • Também lá, eu vivenciei situações chatas como a sensação de estar sendo alvejado por olhares julgadores em restaurantes, por causa do tamanho dos meus pratos de almoço, algo que acredito ser comum entre autistas nível 1 que ocasionalmente comem fora de casa e não conseguem medir e controlar o tamanho dos seus pratos em buffets;
  • Percebi, com mais nitidez e conhecimento de causa, o quanto cidades como São Paulo são despreparadas para reconhecer, acolher e incluir seus moradores e visitantes autistas;
  • Comecei, com muita força e vitórias históricas, meu ciberativismo contra o capacitismo contra autistas no jornalismo brasileiro, tendo como aliado diversas conhecidas ativistas da neurodiversidade e muitos autistas e familiares menos conhecidos. Em cerca de 40 dias, em diferentes portais de notícias, seis matérias com linguajar preconceituoso foram corrigidas, uma reportagem desinformativa foi removida e um artigo que incitava a discriminação contra crianças e adolescentes aspies foi deletado do Estadão - juntamente com o blog inteiro que o hospedava e o cargo da sua autora de blogueira cultural;
  • Graças às iniciativas ativistas que eu liderei ou empreendi individualmente, diversos jornalistas e equipes de redação de portais brasileiros agora sabem que nós autistas somos uma minoria tão resistente, desejosa de respeito e emancipação e combatedora da opressão e do preconceito quanto categorias como trabalhadores, mulheres, negros, LGBTs e minorias religiosas;
  • Firmei alianças importantíssimas no ativismo autista, com pessoas como Amanda Paschoal, Fernanda Santana e Rita Louzeiro (da Abraça), Adriana Torres (Comunicando Direito e também da Abraça), Victor Mendonça e Selma Sueli Silva (do canal e site Mundo Asperger), Andréa Werner (Lagarta Vira Pupa),  e Thais Cardoso (do canal e site Mamãe Tagarela);
  • Comecei a escrever sobre autismo e neurodiversidade para o Observatório da Imprensa (link para um dos artigos) e o blog Escreva Lola Escreva, da professora feminista Lola Aronovich (link para um dos artigos);
  • Aprendi, entre outras lições de enorme importância, que os rótulos de “severidade” do autismo (“autismo leve”, “autismo moderado” e “autismo severo”) também são criticados por uma parte da comunidade autista, assim como os de “funcionamento”, sendo preferível, ao invés, a categorização das condições do espectro autista por níveis de necessidade de apoio;
  • Conheci, por meio de um amigo também autista, o maravilhoso ativismo de Greta Thunberg em defesa do meio ambiente, contra a inépcia da grande maioria dos governos nacionais perante a crise climática, e, mais ocasionalmente, do orgulho autista;
  • A própria Greta me inspirou - e me motivou indiretamente, por meio dos ataques capacitistas promovidos pelo artigo das “trancinhas teleguiadas” que conseguimos fazer o Estadão derrubar - a empreender meu já mencionado forte ativismo autista contra o capacitismo da imprensa brasileira;
  • Converti, no Twitter, a antiga conta @Veganagente em @robfbms, tornando-a meu perfil oficial e usando-a para, entre outras missões, promover minha conscientização em prol da aceitação da neurodiversidade e contra o capacitismo (leia um dos threads que eu escrevi lá sobre o tema) - já que antes o foco do perfil era apenas veganismo e Direitos Animais;
  • Recebi numerosos e belíssimos feedbacks de seguidores autistas e mães e pais de autistas, graças ao trabalho que tenho feito nas redes sociais de conscientização. Gratidão a todas as pessoas que me trouxeram suas felicitações e depoimentos!;
  • Ao perguntar à minha mãe sobre meus comportamentos quando era bebê e conferir diversos documentos institucionais (das escolas onde estudei e dos órgãos públicos aos quais ela havia recorrido para buscar uma escola de superdotados para mim) e rascunhos de cartas escritas por ela sobre mim na infância, (re)descobri a criança nítida e comprovadamente autista que eu fui, mas ninguém - nem eu mesmo - reconhecia como tal;
  • Em livrarias e sebos de São Paulo, conheci mais a fundo a perversidade da literatura científica partidária do modelo médico do autismo. Encarei livros que patologizam cruelmente a condição - um dos quais descrevia (favoravelmente) terapias antiautismo como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) de maneira assustadoramente parecida com a forma com que a Zootecnia fala do “manejo” de animais na pecuária;
  • Nas mesmas livrarias e sebos, reconheci um lado sombrio de muitos livros de autoajuda e desenvolvimento profissional: eles são voltados exclusivamente para neurotípicos e julgam de maneira fortemente negativa diversos comportamentos e dificuldades comuns entre autistas, como não conseguir manter contato visual, ter dificuldades de modular o tom de voz e a expressão facial, ter fala pouco assertiva e ser muito sincero. São livros que deveriam ter um alerta de gatilho psicológico para leitores autistas em seu início;
  • Levei conhecimentos valiosos a muitas pessoas, desde autistas e familiares não tão conhecidos até nomes de peso da defesa da neurodiversidade, os quais elas até então não tinham. Por exemplo, graças ao meu trabalho, uma conhecida youtuber brasileira defensora dos autistas e seu marido agora conhecem os podres da Autism Speaks e sabem que praticamente não existem diferenças válidas entre o “autismo de alto funcionamento” e a Síndrome de Asperger (ambos já unificados pelo DSM-5 como Condição do Espectro Autista de Nível 1);
  • Aprendi que o que ocasiona aos autistas dificuldades imensas no mercado de trabalho, em instituições de ensino e em coletivos políticos não é o espectro autista em si, mas sim as barreiras que o capacitismo, a neuronormatividade e a desatenção à necessidade de prover acessibilidade e inclusão nos impõem;
  • Tive ideias para mais de 100 artigos futuros a serem postados no Consciência Autista ao longo dos próximos meses e anos;
  • Em setembro passei a tomar risperidona para controlar os tiques da Síndrome de Tourette e a hipersensibilidade sensorial, em substituição ao Orap, que havia deixado de ser comercializado no Brasil no ano passado. O medicamento está sendo muito bem-sucedido e não me causou nenhum efeito colateral;
  • O blog infelizmente passou cerca de dez meses quase sem nenhum post novo, com exceção das postagens anunciando a pausa por motivos de saúde e o artigo do final de abril sobre TDAH, entre novembro de 2018 e setembro deste ano;
  • Vi algumas celebridades neurotípicas se arrogarem “a voz da comunidade autista” e os “escolhidos por Deus para defender os autistas” por serem pais ou mães de autistas e, por outro lado, se omitirem por completo perante situações graves que têm afligido diretamente os autistas, como os ataques verbais de ódio capacitista contra Greta Thunberg;
  • Descobri que Temple Grandin tem posicionamentos muito controversos em se tratando de neurodiversidade. Um deles é insinuar que seria “ideal” aplicar métodos “científicos” para “prevenir” o nascimento de crianças autistas de nível 3 ("Num mundo ideal, o cientista deveria encontrar um método para prevenir as formas mais severas de autismo, mas permitir a sobrevivência das formas mais brandas.");
  • Ao mesmo tempo que fui me munindo com muito conhecimento sobre a causa neurodiversa, também me carreguei cada vez mais com a empatia e o espírito de luta para fortalecer constantemente meu trabalho de ativismo e conscientização. E o melhor: sabendo equilibrar muito bem a razão e a emoção.

Conclusão

Por um futuro em que ninguém nunca mais sofra o que eu sofri no passado e ainda sofro hoje. Descrição da imagem #PraCegoVer: Essa frase, acompanhada no rodapé pelo símbolo da neurodiversidade, um sinal de infinito colorido com o espectro de cores. Fim da descrição.


Foi um ano extremamente interessante, no que diz respeito a aprimorar, amadurecer e fortalecer minha luta pela aceitação e inclusão da neurodiversidade autista e contra o capacitismo e a psicofobia.

E o melhor é que a tendência é cada um dos próximos anos de existência deste blog e do meu ativismo ser mais intenso, no bom sentido, do que o anterior.

Tenho a esperança de, com essa trajetória de ascensão, me tornar um ativista muito bem reconhecido, tal como, por exemplo, Daniela Andrade se tornou nacionalmente conhecida em seu ativismo transfeminista a partir da primeira metade desta década. E, é claro, usar esse reconhecimento não para interesses pessoais, mas sim para ajudar a tornar a luta pela aceitação autista tão poderosa - e incluída na esquerda - quanto o feminismo, o movimento negro e o LGBT.

Afinal, o sonho maior que me motiva a levar adiante esse ativismo cada vez mais forte é que, num futuro próximo, ninguém nunca mais sofra o que eu sofri no passado e ainda sofro hoje.

Pela emancipação autista! ∞

sábado, 21 de setembro de 2019

Resposta ao Introvertendo sobre o ativismo autista contra o artigo das “trancinhas teleguiadas”

Print do compartilhamento do antigo texto "As trancinhas teleguiadas do 'produto' Greta Thunberg", exibindo uma imagem de uma manifestação com um boneco gigante, de rosto carrancudo, da ambientalista sueca, o título do texto e a palavra "Deletado" por cima da imagem

Aviso de conteúdo: Este artigo contém referência a discursos capacitistas e lembranças traumáticas. Leia somente se estiver seguro de que não sofrerá gatilhos psicológigos.

Na última sexta-feira, o podcast Introvertendo, episódio 68, terceiro bloco, debateu o hoje extinto artigo “As trancinhas teleguiadas do ‘produto’ Greta Thunberg” (saiba o que o texto discursava lendo minha matéria no Observatório da Imprensa). Seus integrantes comentaram também a atuação do movimento autista contra o texto e a resposta do Estadão à mesma.

Reconhecem que aquele conteúdo pegou muito pesado com a ambientalista Greta Thunberg e promoveu uma crítica de baixíssimo nível.

Porém, um deles afirmou, sem ser contestado, que a reação do movimento autista de demandar a remoção do texto teria sido desproporcional, e que o Estadão teria exagerado ao deletá-lo, acabar com o blog que o havia publicado e demitir sua autora.

Diante desse posicionamento - que eu posso considerar polêmico -, que se alicerçou em considerar apenas uma parcela daquele conteúdo, ao invés dele inteiro, eu trago esta resposta.


O artigo não merecia mesmo ser deletado?


O integrante mais crítico afirmou que As trancinhas teleguiadas... estava promovendo uma crítica política, mesmo grosseira e fraca, ao ecoativismo de Thunberg, logo, estaria no mesmo nível de qualquer outro artigo conservador em noticiários. Complementou que o tal conteúdo não necessariamente feria os Direitos Humanos, nem o Código de Conduta e Ética do Grupo Estado. 

Mas será que foi assim mesmo? Veremos.

Em primeiro lugar, o Introvertendo ignorou diversos detalhes cruciais e revoltantes do texto. 

Não comentou, por exemplo, que a autora chamou Thunberg de “garotinha de olhos duros” e descreveu que o rosto dela “não revela nenhuma empatia”, zombando assim de suas características físicas tipicamente autísticas.

Nem mencionou que o artigo não apenas atacava Greta, como também promovia toda uma apologia à discriminação contra crianças e adolescentes aspies, já que:
  • Chamava a Síndrome de Asperger de “perturbação neurológica” ou, em edições anteriores, “doença” ou “psicopatia”;
  • Alegava que aspies menores de idade são “sempre frágeis” e insinuava serem incapazes de pensar por conta própria;
  • Defendia que eles “não podem ser expostos, mesmo se assim quiserem” e que “não têm que querer”, subentendendo que deveriam ter suas liberdades individuais negadas;
  • Achava “imoral” e “irresponsável” pais falarem publicamente sobre a condição e necessidades dos seus filhos autistas e endossava médicos franceses que defendiam a criminalização dessa postura;
  • E na edição original, se referia ao indivíduo aspie com menos de 18 anos como “menor doente”.
Todos esses absurdos afrontaram leis brasileiras defensoras das pessoas com deficiência, autistas, crianças e adolescentes, tais como:
  • A Lei da Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (nº 12.764/2012), artigos 3º e 4º;
  • A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência (nº 13.146/2015), artigos 4º, 5º e 88;
  • O Estatudo da Criança e do Adolescente, artigos 3º, 5º, 15, 16 e 17.
E também violaram diversas diretrizes do Código de Conduta e Ética do Grupo Estado, como estas:
  • “O Grupo Estado, intimamente vinculado aos interesses dos leitores, ouvintes, internautas e o público de outras mídias, defende editorialmente os direitos e as liberdades individuais, o pluralismo democrático e a identidade sócio-cultural do Brasil e de São Paulo.”
  • “O Grupo Estado defenderá os cidadãos das agressões de qualquer forma de poder e estimulará a livre iniciativa em todos os âmbitos da atividade humana.”
  • “Os produtos do Grupo Estado estão abertos ao debate dos assuntos públicos e, independentemente de suas posições editoriais, defendem o pluralismo e a diversidade de opiniões. Recusam-se, no entanto, a veicular teses que neguem a liberdade, atentem contra a dignidade da pessoa humana ou agridam os princípios da ética informativa definidos neste documento.”
  • “Em nenhuma hipótese adote um comportamento que macule a reputação e imagem conquistada ao longo de anos pelas Empresas do Grupo.”


A reação da comunidade autista foi desproporcional mesmo?


Print do comentário de uma mulher autista chamada Jhennifer, que diz: "Eu tive uma crise por causa daquela mulher (a autora do artigo capacitista)! Fiquei pensando, vai ser sempre isso? As pessoas duvidando da minha capacidade intelectual, da minha capacidade de discernimento? Pqp". O comentário aparece curtido com a reação "Triste".


O artigo mencionado, ao invés de fazer uma simples crítica política capenga ao ativismo de Greta Thunberg, trazia um discurso de ódio que incentivava a discriminação contra autistas e carregava expressões e “opiniões” típicas de bullying capacitista. Portanto, causou um grave impacto psicológico em muitos de nós da comunidade autista.

Reviveu dores de momentos traumáticos do nosso passado, como quando:
  • “colegas” nos dirigiam insultos capacitistas e psicofóbicos ou mesmo nos agrediam fisicamente na escola;
  • pais de colegas nossos se negavam a nos convidar para festas porque nos consideravam “doidos” ou “problemáticos”;
  • algumas escolas criminosamente se recusavam a aceitar nossa matrícula por não correspondermos ao perfil de “normalidade” e “disciplina” que esperavam de seus alunos;
  • parentes nossos nos desrespeitavam e deixavam claro que não nos aceitavam do jeito que somos.
Inclusive uma moça (vide a imagem que ilustra este item) relatou no Facebook que, ao ler o abominável texto, passou mal.

Longe de ser uma mera opinião conservadora sobre o ambientalismo juvenil global, aquele texto punha em dúvida o reconhecimento das nossas capacidades e do nosso merecimento de direitos enquanto pessoas autistas.

Suas demandas por discriminação, no atual contexto político de hegemonia da direita radical, tinham o imenso potencial de inspirar um eventual projeto de lei que flexibilizasse as leis mencionadas mais acima e assim limitasse nossas liberdades, sob o pretexto de “proteger” as “tão frágeis” crianças “com autismo”.

Foi por isso que tomamos a mesma atitude que, por exemplo:
  • o movimento feminista quando se depara com algum artigo de opinião que incentiva o assédio sexual contra mulheres;
  • o movimento negro perante um conteúdo público que nega a capacidade de pessoas negras de se tornarem grandes políticos;
  • o movimento LGBT quando um ultraconservador discursa que pessoas não heterossexuais deveriam ser presas por “ameaçar a família brasileira”.


E quanto ao Estadão?


Sobre a providência do Estadão, quero responder que:
  • A empresa fez valer seu estatuto interno, aplicando a sanção prevista para casos de artigos preconceituosos que prejudicassem a reputação e a responsabilidade social da companhia e de seus veículos de comunicação;
  • O desligamento da autora do quadro de colaboradores não chegou a ser uma demanda direta nossa, ainda que tenha sido bem-vindo por nós;
  • O portal podia (e ainda pode) sim trazer uma nota pública oficial expressando que não endossa as opiniões do texto. Tanto foi que passei mais de uma semana insistindo à sua editoria que postasse uma retratação institucional que, além de pedir desculpas a todos nós, revelasse a real razão de suas medidas contra o artigo e sua autora;
  • Mas infelizmente o site não respondeu a esses pedidos. Quem tem a perder com essa atitude é o próprio Estadão, já que fica suscetível à eventual acusação de “censura” ao posicionamento político da ex-blogueira e não recuperou totalmente o respeito que muitos leitores autistas e familiares tinham por ele;
  • Se fosse previsto no estatuto interno, o portal poderia ter, por exemplo, exigido da autora uma retratação própria, a reescrita do artigo ofensor e a retirada do conteúdo preconceituoso; advertido-a para não postar mais textos apoiando qualquer forma de discriminação; convidado um autista militante para escrever um contraponto ou direito de resposta. Medidas como essa também teriam sido bem-vindas, uma vez que nossa demanda não era inflexível.


Seria melhor o artigo ter sido mantido no ar e apenas respondido com textos e vídeos contra-argumentativos?


A frase "Intolerância capacitista não se discute" aparece em cima de uma circunferência cortada. O logo da ONG anti-autismo Autism Speaks, caracterizado como um peça de quebra-cabeça azul junto ao nome da entidade também em azul, aparece envolto e cortado por uma circunferência trespassada por uma linha diagonal. Abaixo da circunferência está a frase "Se combate!"


Um outro argumento utilizado no podcast é que o movimento autista, ao invés de demandar do Estadão a derrubada do artigo capacitista, poderia simplesmente escrever artigos de resposta, tanto expressando indignação quanto refutando cada argumento presente nele.

Se realmente fosse um texto racional, que defendesse um ponto de vista com base em argumentos políticos e filosóficos, sem incitar comportamentos irracionais e intolerantes, isso teria sim sido feito, e não seria necessário exigir sua remoção do portal.

Mas infelizmente aquele conteúdo não tinha esse teor de debate. Muito pelo contrário, era um convite aos leitores para passarem a desprezar a luta e os posicionamentos de Greta Thunberg apenas por ela ser uma adolescente aspie, supostamente incapaz de pensar e agir por conta própria e “manipulada” por sua família e pela “extrema-esquerda” em função de ser uma “menor doente”.

Ou seja, incitava a intolerância capacitista. E, de fato, animou ainda mais as hordas de cyberbullies de extrema-direita que disparam insultos e mentiras contra os perfis da jovem ambientalista nas redes sociais - segundo os próprios participantes desse episódio do Introvertendo dizem reconhecer.

Em outras palavras, era um artigo irracionalista, focado não em argumentar e defender um posicionamento, mas sim em incitar o ódio aos coletivos e indivíduos que pensam diferente da autora dele. E posturas tão violentas e opressoras como essa não se discutem, se combatem, tal como pregam os movimentos antifascismo.

Porém, preciso deixar claro que, se o Estadão não tivesse atendido à nossa demanda de retirar As trancinhas teleguiadas… do ar, teria havido sim respostas em formato de textos e vídeos, incluindo minhas. Eu havia planejado escrever uma contra-argumentação que rebateria os discursos capacitistas e antiambientalistas do texto e os compararia aos discursos dos machistas contra as liberdades das mulheres, caso ele fosse mantido publicado.


Considerações finais


Respeito democraticamente a opinião dos integrantes do Introvertendo que não concordam integralmente com o ativismo que promovemos contra o artigo capacitista e a respectiva resposta do Estadão. Mas tenho que ressaltar que o posicionamento deles teria sido bem diferente se o texto inteiro fosse levado em consideração.

No mais, continuaremos lutando pelo fim do capacitismo e das apologias à discriminação contra nós autistas na imprensa brasileira. Sempre que aparecer um texto de opinião, ou uma matéria jornalística, que contenha linguajar preconceituoso e/ou chegue ao extremo de discursar contra nossa dignidade, nossas virtudes e nossos direitos, iremos protestar com veemência.

Demandaremos, do veículo de comunicação que o publicou, a sua reescrita, com a remoção de todo o conteúdo preconceituoso. Se o material em questão for explicitamente discriminatório e apologista do ódio, exigiremos sua completa remoção e, dependendo do caso, a responsabilização profissional e judicial do autor.

Seria muito bom se tudo fosse questão de divergência democrática e racional de ideias e, assim, pudesse ser resolvido com debates cordiais nos quais houvesse aprendizado mútuo. Mas infelizmente o artigo das “trancinhas teleguiadas” não correspondia a esse ideal, já que colocava em perigo nossos direitos como cidadãos autistas, incluindo nossas próprias liberdades de expressão e atuação política.

Por isso, tivemos que reivindicar sua deleção, já que, longe de debater com seriedade o ambientalismo ou a Síndrome de Asperger, ele expressava um desejo de que pessoas como Greta Thunberg e, por tabela, eu e os próprios membros do Introvertendo fossem proibidas de se integrar plenamente ao mundo e defender um futuro melhor tanto para o planeta e a humanidade quanto para nós mesmos.

Fecho este artigo reiterando: capacitistas, principalmente aqueles que desejam nosso mal e tentam bloquear nossa liberdade e felicidade, não passarão!

terça-feira, 30 de abril de 2019

Introdução ao TDAH: saiba mais sobre essa condição tão incompreendida

Descrição da imagem #pratodosverem: Uma versão do meme "Keep Calm" com um clip-art de cabeça com cérebro (com algumas dobras visíveis) realçado e a frase "Keep Calm and Eu tenho TDAH". Fim da descrição.

Editado em 19/01/2022

Em abril de 2019, aconselhado por um colega de um grupo de autistas do Facebook, eu fiz alguns testes online* para verificar se eu tenho TDAH, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade.

Diante dos resultados de todos eles, cheguei a uma importante conclusão: eu tenho a condição - ou, no mínimo, tenho probabilidades muito elevadas de ser diagnosticado com ela.

Se você ainda não sabe o que é o TDAH, convido você a ler este artigo e aprender mais sobre essa condição tão mal compreendida e que muita gente ainda acha preconceituosamente que é uma doença.

O que é o TDAH?


O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é uma condição de neurodesenvolvimento caracterizada sobretudo pelas enormes dificuldades na concentração e na manutenção da atenção em muitas situações de âmbito pessoal, social, profissional e educacional. 

Essa dificuldade é acompanhada, em graus que variam de pessoa para pessoa, pela hiperatividade. Esta por sua vez é um estado neuropsicológico marcado por agitação, inquietude e humor instável quase constantes e dificuldade crônica de parar pra descansar propriamente e tirar um tempo - mesmo que umas poucas horas do dia - para si mesmo.

E o mais importante: a pessoa não pode controlar as características dessa condição apenas pela força de vontade.

A pessoa com TDAH - para a qual eu sugiro a denominação de tedaísta -, assim como os autistas, precisa de suporte inclusivo e ajuda profissional especializada. Mas infelizmente esse apoio é raro e difícil de se obter no Brasil.

Afinal, são pouquíssimos os psicólogos, neuropsicólogos, psiquiatras e outros profissionais de saúde que entendem plenamente TDAH em adultos - situação ainda pior quando a tedaísta é mulher - e a sua coexistência com o autismo em quem é duplamente neurodivergente.

Além disso, na grande maioria das vezes, esse número tão reduzido de terapeutas cobra caro por consultas particulares e não é conveniado com planos de saúde.

Características do TDAH - e as com quais eu me identifico


A seguinte lista de características do TDAH foi extraída desta matéria do site Minha Vida (as que eu tenho estão marcadas com um asterisco, e as com dois asteriscos são as que eu já tive em algum momento da vida e pararam de se manifestar):

Desatenção
  • Deixar de prestar atenção a detalhes ou cometer erros por descuido em atividades escolares, de trabalho ou durante outras atividades*;
  • Ter dificuldade de manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas*;
  • Não escutar quando lhe dirigem a palavra;
  • Não seguir instruções e não terminar deveres de casa, tarefas domésticas ou tarefas no local de trabalho**;
  • Ter dificuldade para organizar tarefas e atividades*;
  • Evitar, não gostar ou relutar em se envolver em tarefas que exijam esforço mental prolongado (tarefas escolares, deveres de casa, preparo de relatórios etc.)*;
  • Perder objetos necessários às tarefas ou atividades;
  • Ser facilmente distraído por estímulos externos (para adolescentes mais velhos e adultos pode incluir pensamentos não relacionados)*;
  • Ser esquecido em relação a atividades cotidianas*.
Hiperatividade
  • Remexer ou batucar mãos e pés ou se contorcer na cadeira*;
  • Levantar da cadeira em sala de aula ou outras situações nas quais se espera que permaneça sentado (sala de aula, escritório, etc.)*;
  • Correr ou subir nas coisas, em situações onde isso é inapropriado ou, em adolescentes ou adultos, ter sensações de inquietude*;
  • Ser incapaz de brincar ou se envolver em atividades de lazer calmamente*;
  • Não conseguir ou se sentir confortável em ficar parado por muito tempo, em restaurantes, reuniões, etc.*;
  • Falar demais;
  • Não conseguir aguardar a vez de falar, respondendo uma pergunta antes que seja terminada ou completando a frase dos outros*;
  • Ter dificuldade de esperar a sua vez**;
  • Interromper ou se intrometer em conversas e atividades, tentar assumir o controle do que os outros estão fazendo ou usar coisas dos outros sem pedir.
Existem três tipos de TDAH:
  1. O predominantemente desatento, quando as características de desatenção são mais fortes do que as de hiperatividade e impulsividade;
  2. O predominantemente hiperativo-impulsivo, quando as características de hiperatividade e impulsividade são mais fortes do que as de desatenção;
  3. O combinado, quando ambos os tipos de características se manifestam com intensidade semelhante.

O capacitismo sofrido por pessoas com TDAH (tedaístas)


Aviso de conteúdo: Esta parte do artigo contém menções a capacitismo contra quem tem TDAH. Continue lendo somente se tiver segurança de que não sofrerá com gatilho de traumas.

Os tedaístas, assim como os autistas, são alvo constante do preconceito, da discriminação e da desinformação em meio a uma sociedade que não aceita - mas sim nega, patologiza e tenta combater - a neurodiversidade.

Essas são algumas das formas como o capacitismo contra quem tem TDAH se manifesta:
  • Os sistemas de saúde do mundo inteiro têm sérios problemas em prover acolhimento e suporte inclusivo para pessoas com TDAH. Como já foi mencionado, faltam profissionais de saúde mental capacitados que conheçam suficientemente a condição e saibam identificá-la e diagnosticá-la em pessoas de todas as idades;
  • Muitos psiquiatras não entendem de TDAH e, por causa disso, negam o diagnóstico aos pacientes necessitados e dão parâmetros inexistentes para tentar justificar essa negação (ex.: "Você não pode ter TDAH, já que tira ótimas notas na universidade");
  • No outro extremo, muitos outros profissionais de saúde mental prescrevem medicamentos de TDAH para qualquer criança que, mesmo sem a condição, tem comportamentos que parecem hiperativos. Isso atrapalha muito a compreensão da sociedade sobre ela e faz com que muitas pessoas tenham uma postura negacionista;
  • Por causa disso, a grande maioria dos adultos tedaístas não consegue diagnóstico formal. Vivem assim uma vida cheia de problemas e dificuldades, sofrendo com a incompreensão e o preconceito das pessoas ao seu redor sem, em casos em que a pessoa não sabe que tem TDAH, sequer saber por quê;
  • Muitas pessoas ainda negam a existência da condição e a necessidade de apoio inclusivo dos tedaístas, apesar de ambas serem confirmadas pela comunidade médica e neurocientífica;
  • Tedaístas costumam ser duramente julgados, tachados de preguiçosos, lerdos, descontrolados, desequilibrados, malcriados, atrapalhados, entre outras depreciações, por parte de professores, colegas, amigos e/ou dos próprios pais ou guardiões. Isso leva, obviamente, a atos de discriminação, maus tratos, exclusão social e bullying contra eles;
  • Hiperativos, os tedaístas costumam ter hipersensibilidade sensorial semelhante à dos autistas. E como a maioria dos ambientes urbanos é repleta de barulho, luzes e/ou cheiros e não é adaptada para pessoas neurodivergentes, lhe trazem um alto risco de sofrer crises de sobrecarga mental e explosões de estresse.
Fica muito evidente assim a necessidade de o movimento da neurodiversidade abranger as pessoas com TDAH com a mesma força que já abrange os autistas.

Conclusão


Cada vez mais pessoas estão adquirindo consciência sobre o que é o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Também se percebe mais e mais a necessidade de que a condição não seja combatida como se fosse uma patologia, mas sim que seja tratada em suas características negativas, seja reconhecida como deficiência pela lei e receba políticas de inclusão e adaptação.

Concluo ressaltando que, na condição de autista e tedaísta, posso me considerar uma pessoa duplamente neurodivergente - ou triplamente, se for reconfirmado na idade adulta o diagnóstico de superdotação que eu tive na infância.

Assim sendo, acho justo e muito necessário falar, no blog Consciência Autista e em seus perfis das redes sociais, não só do autismo, mas também do TDAH e da dupla neurodivergência composta por ambos. Este artigo é um primeiro passo na diversificação da conscientização que eu faço da neurodiversidade.

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*Os testes online não têm caráter diagnóstico, mas dão pistas muito importantes sobre se a pessoa tem ou não a condição testada. E ao meu ver, quando vários (pelo menos uns quatro) testes do tipo sobre a condição específica posta em avaliação têm resultados convergentes, a probabilidade de eu tê-la - quando o seu conjunto de características não corresponde necessariamente a outras condições - tende a 100%.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

[atualizado 14/01/2019] Consciência Autista de recesso por tempo indeterminado


Atualizado em 14/01/2019

Pessoal, me dei férias dos blogs Consciência Autista e Veganagente por tempo indeterminado, por motivos de necessidade de descanso e recuperação da minha saúde mental.

Em meados deste mês de janeiro, tentei voltar a escrever, mas senti que minha energia criativa não voltou como eu esperava. Continuo abatido e sem disposição mental para escrever.

Por isso, eu estou dando recesso a mim mesmo, de modo que passarei um tempo indeterminado descansando - o máximo de trabalho que terei é o de divulgar postagens já existentes e imagens de memes dos dois blogs no Facebook e no Instagram.

Então nos vemos na volta ao trabalho. Agradeço a compreensão de quem espera por artigos novos. Até lá!

terça-feira, 20 de novembro de 2018

O SMS que mudou a minha vida


Em 7 de março de 2017, minha namorada Danielle me enviou um SMS que mudou a minha vida.

Nas suas leituras sobre a Síndrome de Asperger, com a qual ela se identificou, ela descobriu que eu também tinha indícios muito fortes de ser um autista aspie.

Aquela mensagem mudou para sempre o meu autoconhecimento, a forma como eu vejo a mim mesmo. E respondeu muitas questões do meu passado.

Saiba mais, neste artigo, sobre esse momento histórico da minha vida. Ou seja, sobre como um indivíduo saiu da total ignorância sobre sua condição para abraçar a causa autista neurodiversa por total identificação.

O que dizia o SMS


O SMS, muito fofo por sinal, dizia (adaptado):
“Então, amorzinho… eu tô lendo mais a fundo sobre Asperger e tal. Ainda não tenho certeza quanto a mim, mas eu tô quase convencida de que você tem [a Síndrome de Asperger], fofo.”
Ela me enviou enquanto voltava da universidade para casa, e mandou em formato de texto para não ser ouvida por outros passageiros, afinal era algo extremamente íntimo. Estávamos conversando por telefone (namoramos à distância), e ela escreveu enquanto demos uma pequena pausa na conversa.

Eu lembro que fiquei impressionado e com cara de “Eita! Será mesmo?”, mas não passou muito tempo até que eu aceitei a revelação.

Afinal, aquela era a resposta para muita coisa no meu passado e no meu presente.

Os dias seguintes à mensagem


Aspie Quiz, uma das ferramentas que me ajudaram a confirmar que sou autista aspie
Depois daquela histórica mensagem, comecei a pesquisar listas de características e testes informais de Síndrome de Asperger, como o Aspie Quiz.

E pouco a pouco fui descobrindo o autista que reside em mim, apesar de o primeiro teste do Aspie Quiz ter dado “provavelmente neurotípico” e isso ter me deixado com dúvida.

Esse primeiro teste eu considero hoje que foi respondido de maneira parcialmente errônea, por autoconhecimento insuficiente.

Esse conhecimento de mim mesmo cresceria enormemente nos meses seguintes.

Pesquisei bastante sobre a Síndrome de Asperger e o espectro autista como um todo, em fontes em português e inglês.

E, modéstia à parte, acredito que acumulei mais conhecimento sobre essa deficiência do que 90% dos psiquiatras e psicólogos brasileiros.

Até que o último Aspie Quiz de 2017 eu lembro que deu “provavelmente neurodiverso/Asperger” e eu percebi: realmente sou autista leve.

Ainda relutei em contar para a minha família e assumir publicamente meu autismo nos meses seguintes à mensagem de Danielle, até que, em dezembro, o autista que mora em mim - e que sou eu - se mostrou para o mundo e começou a defender a neurodiversidade.

Uma reflexão sobre como eu tenho sorte de ter uma namorada aspie que me fez descobrir também ser autista


Considero que tenho muita sorte em ter uma namorada que se descobriu aspie primeiro e, em seguida, me descobriu também autista leve.

Não bastasse toda a minha felicidade no amor tendo-a como namorada - já estamos há quase seis anos num namoro à distância extremamente estável, amoroso e carinhoso, sem nunca termos brigado -, ainda tive a fortuna de, graças a ela, descobrir algo que até então nenhum psicólogo e psiquiatra havia desvelado sobre mim mesmo.

Penso que tenho sorte porque, graças a Danielle, escapei da tristeza de viver eternamente no escuro, sem saber quem eu realmente sou e descobrir minha condição. Algo que atormentou pessoas de muitas gerações passadas e ainda fustiga milhares ou milhões de pessoas que são autistas mas não sabem.

Eu sinceramente gostaria que mais pessoas tivessem essa oportunidade de descobrir essa parte pouco compreendida de si mesmas. Que uma pessoa querida lhes pudesse falar, com o mesmo carinho com que Dani me falou, que elas são diferentes no bom sentido e possuem uma condição de neurodiversidade.

Mas sei que, infelizmente, para muitos essa pessoa nunca vai chegar. E é para que elas algum dia, de outra maneira igualmente positiva, saibam de seu autismo que o movimento defensor da neurodiversidade luta.

Conclusão


Este foi o relato de como um SMS da minha namorada foi um divisor de águas entre uma época de total desconhecimento sobre autismo e a era da consciência plena de quem eu realmente sou.

Se você não tem uma pessoa querida próxima de você para lhe revelar o que você não sabe sobre Síndrome de Asperger, convido você a estudar conteúdo em português e em inglês sobre o assunto.

Você poderá descobrir, por exemplo, que aquele seu amigo “esquisitão” é autista e não sabe. Ou mesmo que você próprio é neurodiverso.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

O que o autismo tem a ver com minha falta de disposição para participar de movimentos sociais e manifestações


Por muitos anos, eu desejei participar de movimentos sociais, de coletivos que defendessem alguma causa.

Só que, de alguns anos para cá, esse interesse foi sumindo, até que hoje eu não tenho mais a mínima vontade de aderir a grupos do tipo. E por todo esse tempo me perguntei por que isso aconteceu.

Não é por medo do futuro governo de Bolsonaro. Mas sim, pelo que descobri do ano passado para cá, porque é assim que eu sou: um autista que não é muito chegado à socialização e não deseja mais tentar se entrosar com pessoas que podem, a qualquer momento, me julgar e me condenar em função de meus comportamentos.

Quero, neste artigo, relatar como eu cheguei à conclusão de que essa indisposição de aderir a coletivos é parte de mim, que só vai ser tratada daqui a bastante tempo - quando eu tiver meu dinheiro e condições de ter acompanhamento de um psicólogo que me reconheça como aspie.

Minha falta de disposição para participar de coletivos políticos e manifestações


Por vários anos eu tentei participar de grupos de ativismo e protestos. Lembro de ter participado de alguns grupos de defesa dos animais e do vegetarianismo, entre 2008 e 2012.

Só que nunca fui verdadeiramente aceito e acolhido. Meus comportamentos - cuja causa eu então desconhecia - atraíam a antipatia de boa parte dos membros desses grupos.

Eu fazia perguntas sem noção. Falava em público - em grupos do Google Grupos ou comunidades ou scraps do Orkut - coisas que os receptores de minhas mensagens respondiam, com agressividade extrema, que só deviam ser tratadas em privado, longe do olhar alheio. Tentava paquerar com alguma membro de maneira totalmente descoordenada - mas que, a saber, nunca chegou a ser tida como machista e assediadora -, uma vez que eu sofria de uma imensa carência amorosa.

Em dois desses grupos, de tanto perceber que não era bem quisto no meio, acabei saindo voluntariamente.

Em 2012, retornei as tentativas de participar de grupos sociopolíticos pró-vegetarianismo. Participei de algumas reuniões, mas sentia que alguns membros não me viam com olhos muito receptivos nessas ocasiões.

Também marcava piqueniques num parque aqui de Recife. Mas esses eventos só resultaram em mais desafetos, por causa dos meus comportamentos socialmente malquistos, como comer mais do que a quantidade socialmente aceita.

Já nas manifestações que aconteceram na época, eu ia com a intenção tanto de defender a pauta estabelecida como de tentar me socializar e integrar algum grupo - até por questão de segurança.

Mas, é claro, não consegui me aproximar de nenhum grupo na época. O único do qual eu participei com alguma regularidade - que se chamava Zona Recife e existiu em 2009 - se separou em poucos meses de atividade.

Ou seja, de tanto tentar me socializar nesses grupos e ser malsucedido, acabei desistindo, e não tenho mais nenhuma perspectiva de tentar novamente aderir a algum.

Por que não tento mais hoje, nem sabendo da minha condição autística


A este momento, alguém pode vir me perguntar por que eu não tento mais hoje, já que agora eu sei que sou autista e posso falar isso abertamente para justificar eventuais comportamentos indesejados.

A razão é que os movimentos sociais - todos eles, exceto talvez o próprio movimento de autistas - são capacitistas e não aceitam plenamente autistas entre seus membros.

Em nenhum lugar, seja ele coletivo social, partido ou organização vegana/vegetariana, vou encontrar braços abertos e a plena compreensão de minha condição e dos porquês de meus comportamentos.

Sei que, se eu cometer algum comportamento socialmente repudiado, serei malvisto como nas outras vezes. E não vou me sentir à vontade de permanecer no coletivo.

E pior, o tempo todo vou me sentir sendo vigiado e julgado.

Além disso, pelas minhas dificuldades de socialização, a tendência é de não conseguir fazer nenhuma amizade nesses meios.

É de não estabelecer nenhum laço necessário para me manter coeso a esses grupos. Pelo contrário, só desafetos e pessoas neutras perante a minha presença.

Afinal, hoje em dia o entendimento da maioria dos neurotípicos e daqueles que não sabem ser autistas sobre o espectro autista é muito precário e desinformado.

Muitos ainda acham que o autismo é uma doença, uma incapacitação - pior é que eu próprio tinha essa concepção preconceituosa até 2015 -, e que autistas são, estereotipicamente falando, aquelas crianças que passam na televisão, que não falam, não conseguem se comunicar e reagem com agressividade extrema à sobrecarga perante os estímulos do ambiente.

Quanto a manifestações, sei que em todas elas eu estarei sozinho, sem um amigo do lado para me proteger - a não ser que, com muita sorte, eu encontre um amigo da minha época de estudante -, e correrei riscos multiplicados de apanhar da polícia e mesmo de ser preso, sem que ninguém vá ao meu socorro.

Em outras palavras, não me sentiria nada seguro nessas ocasiões.

Conclusão


É por todos esses motivos que eu não me atrevo mais a tentar entrar num movimento social - exceto o próprio movimento autista, e olhe lá -, partido ou grupo ativista.

Prefiro atuar da maneira que eu sei atuar e é mais segura para mim - sendo blogueiro e divulgador de conteúdo em redes sociais.

Espero que quem me ler e me conhecer passe a compreender um pouco do que eu sofri ao longo desses anos em que tentei me socializar em movimentos sociais. E entenda se eu de repente disser que não entro mais em nenhum grupo do tipo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Por que até hoje ainda reluto um pouco em assumir de corpo e alma o atributo de autista


Eu sou autista e me assumo com orgulho. Mas mesmo assim ainda tenho um pouco de relutância em vestir essa camisa (que não tem a estampa peitoral que eu odeio) de corpo e alma.

Essa hesitação tem a ver com as violências verbais que sofri na década passada, já relatadas aqui no blog. E acredito que muitos outros autistas sentem o mesmo.

Portanto, quero relatar com mais detalhes essa dificuldade, de modo a ajudar você, caso também tenha essa hesitação, a se identificar com esse sofrimento passado e vencê-lo.

O que o meu passado tem a ver com a relutância em me assumir autista 100%


Como já contei em outro artigo, sofri um forte cyberbullying na década passada, entre 2003 e 2008, em função de ser tido como “esquisito” e “retardado” num fórum virtual.

“Autista” era o nome de que mais me chamavam. Como insulto mesmo, como adjetivo depreciativo, não como uma tentativa de me fazer descobrir que eu era/sou neurodiverso.

Por isso, passei anos do começo da minha vida adulta temendo ser chamado de autista. Até que, “fatalmente”, minha namorada me relatou que identificou em mim características importantes da Síndrome de Asperger.

Ou seja, aquele “nome” realmente me caracterizava. Não da forma como os bullies do passado queriam - como um “retardado”, “bizarro” e “idiota” -, mas sim clinicamente falando. Com características que o DSM-5 associa ao autismo.

Mesmo assim, durante vários meses, fiquei reticente em assumir para mim esse “rótulo”. Tanto foi que, no dia em que me assumi aspie para o mundo, em dezembro de 2017 - leia aqui o artigo que foi publicado na época -, foi como “autista leve”, meio que como uma maneira de minimizar meu atributo de autista.

É hora de eu vencer essa relutância - e você também, caso também seja autista


Escrevi este artigo já com a intenção de que ele quebre o que resta dessa resistência de assumir o rótulo de autista. Pois bem, é isso que eu sou - autista, autistaço, com A maiúsculo, ainda que com um autismo diferente, mais “leve”, do de um autista severo.

Penso, aliás, que você, se também for aspie, pode também ter passado por violência do tipo no passado, de ser chamado de “autista” num sentido não clínico, mas sim discriminatório e ofensivo.

Então, se for o caso, trabalhe com seu psicólogo - caso tenha o acompanhamento de um - como você pode assumir, de corpo e alma, o “rótulo” de autista para o mundo e para você mesmo.

Conclusão


Sim, eu sou autista, e tanto é que eu tenho este blog chamado Consciência Autista, que trata da consciência ético-moral de um autista adulto. E farei o possível para me libertar de qualquer ressalva que reste de me autointitular assim.

Espero que este relato também ajude você a se libertar das amarras do passado e assumir sua condição e identidade psicossocial sem mais percalços e poréns.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Como a exclusão de autistas dificulta minha inserção no mercado de trabalho


Atualizado em 06/01/2020

Um triste dado é repetido todos os anos: cerca de 80% de toda a população autista do planeta é desempregada.

Meu caso infelizmente é de ser um desses milhões de autistas desempregados, que, por questões como hiperfoco mercadologicamente desvalorizado e dificuldades de se adequar a trabalhos em empresas não inclusivas, acarretadas por um mercado capacitista e excludente, não conseguem arranjar um emprego.

Poucos são aqueles que têm a sorte de ter um hiperfoco valorizado pelo mercado de trabalho, como os especializados em Ciência da Computação ou em Engenharia Civil, e serem contratados por empresas que adotam uma política de inclusão de talentos autistas.

Quero contar como não tive essa sorte e hoje estou lutando arduamente para conseguir um trabalho autônomo que rentabilize aquilo no que sou bom e com o que posso lidar plenamente.

Um pouco da minha atribulação universitária


Para começo de conversa, tive - e até o momento tenho - uma vida acadêmica um tanto instável, por causa da ausência de políticas de inclusão de autistas e pessoas com outras deficiências invisíveis em universidades públicas.

Desisti de três cursos - Jornalismo, História e Bacharelado em Ciências Sociais -, tranquei duas vezes um curso antes de sair dele - Bacharelado em Ciências Sociais -, quase desisti dos dois nos quais me formei - Gestão Ambiental e Licenciatura em Ciências Sociais - e fracassei em três seleções de mestrado, cada uma para um curso diferente.

Em Gestão Ambiental, eu me diplomei, mas acabei não me identificando com o curso. Diante desse fato, não fiz estágio, não me preparei para trabalhar como gestor ambiental.

Só me identifiquei ligeiramente com a Educação Ambiental, que correspondia a um dos módulos daquele curso. Mas não a ponto de se tornar um hiperfoco e um interesse profissional a ser almejado com afinco.

Cheguei a comprar dezenas de livros de meio ambiente, principalmente de Educação Ambiental, mas se li cinco deles ao longo dos últimos dez anos, li muito.

Só fui encontrar um hiperfoco profissionalmente aproveitável na licenciatura em Ciências Sociais. Só que é aí que começa uma história que mistura a desconsideração de minhas deficiências (autismo nível 1 e TDAH) pelo mercado e pelo Estado com o fato de ter um hiperfoco do qual nem as empresas, nem os poderes políticos estabelecidos gostam.

Cheguei a entregar currículos em escolas em São Paulo - pretendo me mudar para lá quando for possível -, mas nenhuma aceitou.

Soube depois, num grupo do Facebook intitulado “Ciências Sociais e o mercado de trabalho”, que apenas escolas públicas contratam licenciados em CS/Sociologia - mediante concurso público ou seleção simplificada de temporários. Escolas privadas designam professores com outras formações, como História e Geografia, para ensinar Sociologia no ensino médio.

Também não encontrei nenhum curso à distância de CS para ser tutor de EAD, nem em universidades públicas.

A oportunidade restante que eu teria de ensinar seria em faculdades privadas, onde eu ensinaria Fundamentos de Sociologia em cursos diversos. Mas elas requerem que o postulante à vaga tenha pós-graduação - e como já falei, não consegui entrar no mestrado.

E para piorar, as perspectivas para licenciados em Ciências Sociais são sombrias para os próximos anos, caso Bolsonaro permaneça no poder ou, se cair, seja sucedido por outro presidente de direita.

A Sociologia está desaparecendo das grades curriculares do ensino médio. Poderá sumir de vez, ou se tornar muito rara em escolas, por causa da pressão dos defensores do famigerado Escola Sem Partido e de políticos reacionários.

E nas cada vez menos vagas que restam, a tendência é os professores serem vigiados por seus próprios alunos, de modo que não poderão mais expressar livremente suas opiniões políticas, nem ensinar a teoria marxista, um dos pilares da Sociologia, nem falar de temas caros a essa disciplina, como questões de gênero e orientação sexual.

Com isso, eu posso dizer que meu diploma de licenciatura em Ciências Sociais, no contexto atual, não tem nenhum valor para o mercado. A esperança é, num futuro próximo, após adquirir por meios autodidáticos o conhecimento sociológico que não obtive na UFPE, eu ministrar cursos online.

Meus hiperfocos atuais - e minha enorme dificuldade de mudar de foco


Com isso, restaram, profissionalmente falando, aqueles dois hiperfocos pelos quais eu tento construir meu sustento hoje: veganismo e ativismo neurodiverso.

Atualmente eu tento ganhar dinheiro comercializando meus três livros sobre veganismo, que não têm editora, em livrarias como o Clube de Autores, a Amazon e a Cultura, e vendendo e-books e livros afiliados.

Só que, até o momento, o rendimento tem sido muito baixo - entre poucas dezenas e poucas centenas de reais por mês -, insuficiente para, por exemplo, pagar um curso bom de marketing digital e contratar serviços de design, ambos os quais impulsionariam minhas vendas.

Nem sequer consigo poupar e juntar essa mixaria, porque sempre aparece algum motivo para gastar, como a compra de paroxetina, risperidona e suplementos de vitamina B12 e a recarga de meu bilhete de ônibus e dos créditos do meu celular.

Diante disso, entre 2016 d 2018 pensei frequentemente que deveria tentar mudar meu hiperfoco para algo realmente aceito pelo mercado de trabalho - como, por exemplo, gestão de redes sociais de empresas ou trabalhos de design.

Só que essa tentativa de mudá-lo forçadamente me rendeu muito sofrimento. Sofri com uma depressão, que felizmente está sob controle e pode até ter sido curada.

Afinal, não consegui aprender a gostar de nenhuma área profissional minimamente rentável, tenho que lidar com os ganhos ridiculamente baixos com meus livros e produtos afiliados e tenho visto meus sonhos serem sempre empurrados com a barriga, por causa da falta de dinheiro, da quase inflexibilidade dos meus interesses especiais profissionais e de problemas de produtividade decorrentes do meu provável TDAH e da minha Síndrome de Atraso da Fase do Sono.

Conclusão


Essa é a minha atribulada história de tentativa de ganhar meu próprio dinheiro e me encaixar no mercado de trabalho. Uma história na qual, até o momento, não obtive muito sucesso e, por isso, vivo como um "adolescente velho", ou "Peter Pan involuntário", dependente dos pais e longe da emancipação financeira que se espera dos adultos.

Posso dizer que a maioria dos autistas adultos no Brasil passa por algo semelhante ao que eu tenho passado: muita dificuldade de se encaixar num curso universitário e num emprego, dificuldades de encontrar um trabalho apropriado sem um laudo de pessoa com deficiência, hiperfoco de difícil flexibilização que mais atrapalha do que ajuda a se inserir no mercado... Afinal, o Estado e o mercado não reconhecem nossas necessidades específicas e não nos aceitam como trabalhadores.

Minha luta para ter o meu próprio dinheiro continua, a muito custo e persistência. E infelizmente as barreiras que a sociedade impõe a pessoas como eu têm me impedido de conseguir sucesso até o momento.

Espero, com este artigo, trazer para muitas pessoas a consciência que lhes falta sobre o quanto tem sido difícil para nós se encaixar nesse excludente mercado de trabalho.