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quinta-feira, 17 de outubro de 2019

1 ano de Consciência Autista: as intensas vivências e aprendizados que juntei ao longo desse período de grande evolução

Um ano do blog Consciência Autista, com muito trabalho pelo respeito à neurodiversidade e pelo fim do capacitismo contra autistas. Descrição da imagem #PraCegoVer: O símbolo da neurodiversidade autista, que é um sinal de infinito colorido com o gradiente espectral de cores, o nome "Consciência Autista" e o lema "Um ano de conscientização e luta pela aceitação e inclusão da neurodiversidade". Fim da descrição

Na semana passada, o Consciência Autista completou um ano de fundação. E que ano!

Desde 9 de outubro de 2018, eu tive o prazer de incrementar, num ritmo praticamente exponencial, meu conhecimento sobre autismo e neurodiversidade, as necessidades e demandas da comunidade autista e o capacitismo e psicofobia contra nós autistas.

E não só isso, como também recebi, tanto em minha vivência como por meio de muitas leituras, muitas poderosas “injeções” de conscientização e incentivos à indignação perante o quanto a sociedade é cruel e discriminatória contra nós.

Eu aproveito este primeiro aniversário do blog para listar um pouco do que eu vivi e aprendi nesses 365 dias de consciência neurodiversa cada vez mais forte, e como esse vasto aprendizado será precioso para o crescimento deste site e do meu ativismo autista como um todo.

Uma abrangente amostra do que eu vivenciei e aprendi ao longo desse primeiro ano do blog

Eis uma abrangente amostra, não estando em ordem cronológica, das minhas experiências e aprendizados de vida que tive entre outubro do ano passado e outubro deste ano:
  • Lancei no Facebook a minilivraria do Consciência Autista, com dezenas de títulos afiliados à Amazon à venda;
  • Descobri, induzido à devida pesquisa pela resposta de um colega de um grupo de autistas no Facebook a um tópico meu, que é quase certo que eu tenho Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) do tipo Combinado, como uma das minhas condições coexistentes ao autismo nível 1;
  • Essa descoberta me revelou o verdadeiro porquê de, apesar de ter conseguido me formar em Gestão Ambiental e Ciências Sociais, eu não ter conseguido adquirir aprendizado suficiente para me capacitar profissionalmente nessas duas áreas. Nem o IFPE (onde cursei GA) nem a UFPE (onde fiz CS) possuem políticas de inclusão plena de alunos autistas e com outras deficiências invisíveis que interferem na aprendizagem perante os métodos didático-pedagógicos mais comuns no Ensino Superior;
  • Nos dois meses que passei de visita em São Paulo com minha namorada, senti na pele os sofrimentos de um autista nível 1 que não tem (ou, no meu caso, não tinha) acesso a tratamentos da hipersensibilidade sensorial e do fluxo excessivo de pensamentos e preocupações. Sofri sobrecarga sensorial várias vezes em bairros como Sé, Vila Mariana, Barra Funda e Pompeia, por causa de estímulos como os horríveis ruídos automotivos, os fortes odores da poluição atmosférica e as incômodas aglomerações em estações como Luz, Palmeiras-Barra Funda, Sé e Brás. Nem os passeios em confortáveis parques como o Ibirapuera, o da Aclimação e o Raphael Lazzuri (em São Bernardo do Campo, perto da UFABC) conseguiram acalmar os turbilhões de pensamentos que tinha com frequência;
  • Também lá, eu vivenciei situações chatas como a sensação de estar sendo alvejado por olhares julgadores em restaurantes, por causa do tamanho dos meus pratos de almoço, algo que acredito ser comum entre autistas nível 1 que ocasionalmente comem fora de casa e não conseguem medir e controlar o tamanho dos seus pratos em buffets;
  • Percebi, com mais nitidez e conhecimento de causa, o quanto cidades como São Paulo são despreparadas para reconhecer, acolher e incluir seus moradores e visitantes autistas;
  • Comecei, com muita força e vitórias históricas, meu ciberativismo contra o capacitismo contra autistas no jornalismo brasileiro, tendo como aliado diversas conhecidas ativistas da neurodiversidade e muitos autistas e familiares menos conhecidos. Em cerca de 40 dias, em diferentes portais de notícias, seis matérias com linguajar preconceituoso foram corrigidas, uma reportagem desinformativa foi removida e um artigo que incitava a discriminação contra crianças e adolescentes aspies foi deletado do Estadão - juntamente com o blog inteiro que o hospedava e o cargo da sua autora de blogueira cultural;
  • Graças às iniciativas ativistas que eu liderei ou empreendi individualmente, diversos jornalistas e equipes de redação de portais brasileiros agora sabem que nós autistas somos uma minoria tão resistente, desejosa de respeito e emancipação e combatedora da opressão e do preconceito quanto categorias como trabalhadores, mulheres, negros, LGBTs e minorias religiosas;
  • Firmei alianças importantíssimas no ativismo autista, com pessoas como Amanda Paschoal, Fernanda Santana e Rita Louzeiro (da Abraça), Adriana Torres (Comunicando Direito e também da Abraça), Victor Mendonça e Selma Sueli Silva (do canal e site Mundo Asperger), Andréa Werner (Lagarta Vira Pupa),  e Thais Cardoso (do canal e site Mamãe Tagarela);
  • Comecei a escrever sobre autismo e neurodiversidade para o Observatório da Imprensa (link para um dos artigos) e o blog Escreva Lola Escreva, da professora feminista Lola Aronovich (link para um dos artigos);
  • Aprendi, entre outras lições de enorme importância, que os rótulos de “severidade” do autismo (“autismo leve”, “autismo moderado” e “autismo severo”) também são criticados por uma parte da comunidade autista, assim como os de “funcionamento”, sendo preferível, ao invés, a categorização das condições do espectro autista por níveis de necessidade de apoio;
  • Conheci, por meio de um amigo também autista, o maravilhoso ativismo de Greta Thunberg em defesa do meio ambiente, contra a inépcia da grande maioria dos governos nacionais perante a crise climática, e, mais ocasionalmente, do orgulho autista;
  • A própria Greta me inspirou - e me motivou indiretamente, por meio dos ataques capacitistas promovidos pelo artigo das “trancinhas teleguiadas” que conseguimos fazer o Estadão derrubar - a empreender meu já mencionado forte ativismo autista contra o capacitismo da imprensa brasileira;
  • Converti, no Twitter, a antiga conta @Veganagente em @robfbms, tornando-a meu perfil oficial e usando-a para, entre outras missões, promover minha conscientização em prol da aceitação da neurodiversidade e contra o capacitismo (leia um dos threads que eu escrevi lá sobre o tema) - já que antes o foco do perfil era apenas veganismo e Direitos Animais;
  • Recebi numerosos e belíssimos feedbacks de seguidores autistas e mães e pais de autistas, graças ao trabalho que tenho feito nas redes sociais de conscientização. Gratidão a todas as pessoas que me trouxeram suas felicitações e depoimentos!;
  • Ao perguntar à minha mãe sobre meus comportamentos quando era bebê e conferir diversos documentos institucionais (das escolas onde estudei e dos órgãos públicos aos quais ela havia recorrido para buscar uma escola de superdotados para mim) e rascunhos de cartas escritas por ela sobre mim na infância, (re)descobri a criança nítida e comprovadamente autista que eu fui, mas ninguém - nem eu mesmo - reconhecia como tal;
  • Em livrarias e sebos de São Paulo, conheci mais a fundo a perversidade da literatura científica partidária do modelo médico do autismo. Encarei livros que patologizam cruelmente a condição - um dos quais descrevia (favoravelmente) terapias antiautismo como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) de maneira assustadoramente parecida com a forma com que a Zootecnia fala do “manejo” de animais na pecuária;
  • Nas mesmas livrarias e sebos, reconheci um lado sombrio de muitos livros de autoajuda e desenvolvimento profissional: eles são voltados exclusivamente para neurotípicos e julgam de maneira fortemente negativa diversos comportamentos e dificuldades comuns entre autistas, como não conseguir manter contato visual, ter dificuldades de modular o tom de voz e a expressão facial, ter fala pouco assertiva e ser muito sincero. São livros que deveriam ter um alerta de gatilho psicológico para leitores autistas em seu início;
  • Levei conhecimentos valiosos a muitas pessoas, desde autistas e familiares não tão conhecidos até nomes de peso da defesa da neurodiversidade, os quais elas até então não tinham. Por exemplo, graças ao meu trabalho, uma conhecida youtuber brasileira defensora dos autistas e seu marido agora conhecem os podres da Autism Speaks e sabem que praticamente não existem diferenças válidas entre o “autismo de alto funcionamento” e a Síndrome de Asperger (ambos já unificados pelo DSM-5 como Condição do Espectro Autista de Nível 1);
  • Aprendi que o que ocasiona aos autistas dificuldades imensas no mercado de trabalho, em instituições de ensino e em coletivos políticos não é o espectro autista em si, mas sim as barreiras que o capacitismo, a neuronormatividade e a desatenção à necessidade de prover acessibilidade e inclusão nos impõem;
  • Tive ideias para mais de 100 artigos futuros a serem postados no Consciência Autista ao longo dos próximos meses e anos;
  • Em setembro passei a tomar risperidona para controlar os tiques da Síndrome de Tourette e a hipersensibilidade sensorial, em substituição ao Orap, que havia deixado de ser comercializado no Brasil no ano passado. O medicamento está sendo muito bem-sucedido e não me causou nenhum efeito colateral;
  • O blog infelizmente passou cerca de dez meses quase sem nenhum post novo, com exceção das postagens anunciando a pausa por motivos de saúde e o artigo do final de abril sobre TDAH, entre novembro de 2018 e setembro deste ano;
  • Vi algumas celebridades neurotípicas se arrogarem “a voz da comunidade autista” e os “escolhidos por Deus para defender os autistas” por serem pais ou mães de autistas e, por outro lado, se omitirem por completo perante situações graves que têm afligido diretamente os autistas, como os ataques verbais de ódio capacitista contra Greta Thunberg;
  • Descobri que Temple Grandin tem posicionamentos muito controversos em se tratando de neurodiversidade. Um deles é insinuar que seria “ideal” aplicar métodos “científicos” para “prevenir” o nascimento de crianças autistas de nível 3 ("Num mundo ideal, o cientista deveria encontrar um método para prevenir as formas mais severas de autismo, mas permitir a sobrevivência das formas mais brandas.");
  • Ao mesmo tempo que fui me munindo com muito conhecimento sobre a causa neurodiversa, também me carreguei cada vez mais com a empatia e o espírito de luta para fortalecer constantemente meu trabalho de ativismo e conscientização. E o melhor: sabendo equilibrar muito bem a razão e a emoção.

Conclusão

Por um futuro em que ninguém nunca mais sofra o que eu sofri no passado e ainda sofro hoje. Descrição da imagem #PraCegoVer: Essa frase, acompanhada no rodapé pelo símbolo da neurodiversidade, um sinal de infinito colorido com o espectro de cores. Fim da descrição.


Foi um ano extremamente interessante, no que diz respeito a aprimorar, amadurecer e fortalecer minha luta pela aceitação e inclusão da neurodiversidade autista e contra o capacitismo e a psicofobia.

E o melhor é que a tendência é cada um dos próximos anos de existência deste blog e do meu ativismo ser mais intenso, no bom sentido, do que o anterior.

Tenho a esperança de, com essa trajetória de ascensão, me tornar um ativista muito bem reconhecido, tal como, por exemplo, Daniela Andrade se tornou nacionalmente conhecida em seu ativismo transfeminista a partir da primeira metade desta década. E, é claro, usar esse reconhecimento não para interesses pessoais, mas sim para ajudar a tornar a luta pela aceitação autista tão poderosa - e incluída na esquerda - quanto o feminismo, o movimento negro e o LGBT.

Afinal, o sonho maior que me motiva a levar adiante esse ativismo cada vez mais forte é que, num futuro próximo, ninguém nunca mais sofra o que eu sofri no passado e ainda sofro hoje.

Pela emancipação autista! ∞

sábado, 21 de setembro de 2019

Resposta ao Introvertendo sobre o ativismo autista contra o artigo das “trancinhas teleguiadas”

Print do compartilhamento do antigo texto "As trancinhas teleguiadas do 'produto' Greta Thunberg", exibindo uma imagem de uma manifestação com um boneco gigante, de rosto carrancudo, da ambientalista sueca, o título do texto e a palavra "Deletado" por cima da imagem

Aviso de conteúdo: Este artigo contém referência a discursos capacitistas e lembranças traumáticas. Leia somente se estiver seguro de que não sofrerá gatilhos psicológigos.

Na última sexta-feira, o podcast Introvertendo, episódio 68, terceiro bloco, debateu o hoje extinto artigo “As trancinhas teleguiadas do ‘produto’ Greta Thunberg” (saiba o que o texto discursava lendo minha matéria no Observatório da Imprensa). Seus integrantes comentaram também a atuação do movimento autista contra o texto e a resposta do Estadão à mesma.

Reconhecem que aquele conteúdo pegou muito pesado com a ambientalista Greta Thunberg e promoveu uma crítica de baixíssimo nível.

Porém, um deles afirmou, sem ser contestado, que a reação do movimento autista de demandar a remoção do texto teria sido desproporcional, e que o Estadão teria exagerado ao deletá-lo, acabar com o blog que o havia publicado e demitir sua autora.

Diante desse posicionamento - que eu posso considerar polêmico -, que se alicerçou em considerar apenas uma parcela daquele conteúdo, ao invés dele inteiro, eu trago esta resposta.


O artigo não merecia mesmo ser deletado?


O integrante mais crítico afirmou que As trancinhas teleguiadas... estava promovendo uma crítica política, mesmo grosseira e fraca, ao ecoativismo de Thunberg, logo, estaria no mesmo nível de qualquer outro artigo conservador em noticiários. Complementou que o tal conteúdo não necessariamente feria os Direitos Humanos, nem o Código de Conduta e Ética do Grupo Estado. 

Mas será que foi assim mesmo? Veremos.

Em primeiro lugar, o Introvertendo ignorou diversos detalhes cruciais e revoltantes do texto. 

Não comentou, por exemplo, que a autora chamou Thunberg de “garotinha de olhos duros” e descreveu que o rosto dela “não revela nenhuma empatia”, zombando assim de suas características físicas tipicamente autísticas.

Nem mencionou que o artigo não apenas atacava Greta, como também promovia toda uma apologia à discriminação contra crianças e adolescentes aspies, já que:
  • Chamava a Síndrome de Asperger de “perturbação neurológica” ou, em edições anteriores, “doença” ou “psicopatia”;
  • Alegava que aspies menores de idade são “sempre frágeis” e insinuava serem incapazes de pensar por conta própria;
  • Defendia que eles “não podem ser expostos, mesmo se assim quiserem” e que “não têm que querer”, subentendendo que deveriam ter suas liberdades individuais negadas;
  • Achava “imoral” e “irresponsável” pais falarem publicamente sobre a condição e necessidades dos seus filhos autistas e endossava médicos franceses que defendiam a criminalização dessa postura;
  • E na edição original, se referia ao indivíduo aspie com menos de 18 anos como “menor doente”.
Todos esses absurdos afrontaram leis brasileiras defensoras das pessoas com deficiência, autistas, crianças e adolescentes, tais como:
  • A Lei da Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (nº 12.764/2012), artigos 3º e 4º;
  • A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência (nº 13.146/2015), artigos 4º, 5º e 88;
  • O Estatudo da Criança e do Adolescente, artigos 3º, 5º, 15, 16 e 17.
E também violaram diversas diretrizes do Código de Conduta e Ética do Grupo Estado, como estas:
  • “O Grupo Estado, intimamente vinculado aos interesses dos leitores, ouvintes, internautas e o público de outras mídias, defende editorialmente os direitos e as liberdades individuais, o pluralismo democrático e a identidade sócio-cultural do Brasil e de São Paulo.”
  • “O Grupo Estado defenderá os cidadãos das agressões de qualquer forma de poder e estimulará a livre iniciativa em todos os âmbitos da atividade humana.”
  • “Os produtos do Grupo Estado estão abertos ao debate dos assuntos públicos e, independentemente de suas posições editoriais, defendem o pluralismo e a diversidade de opiniões. Recusam-se, no entanto, a veicular teses que neguem a liberdade, atentem contra a dignidade da pessoa humana ou agridam os princípios da ética informativa definidos neste documento.”
  • “Em nenhuma hipótese adote um comportamento que macule a reputação e imagem conquistada ao longo de anos pelas Empresas do Grupo.”


A reação da comunidade autista foi desproporcional mesmo?


Print do comentário de uma mulher autista chamada Jhennifer, que diz: "Eu tive uma crise por causa daquela mulher (a autora do artigo capacitista)! Fiquei pensando, vai ser sempre isso? As pessoas duvidando da minha capacidade intelectual, da minha capacidade de discernimento? Pqp". O comentário aparece curtido com a reação "Triste".


O artigo mencionado, ao invés de fazer uma simples crítica política capenga ao ativismo de Greta Thunberg, trazia um discurso de ódio que incentivava a discriminação contra autistas e carregava expressões e “opiniões” típicas de bullying capacitista. Portanto, causou um grave impacto psicológico em muitos de nós da comunidade autista.

Reviveu dores de momentos traumáticos do nosso passado, como quando:
  • “colegas” nos dirigiam insultos capacitistas e psicofóbicos ou mesmo nos agrediam fisicamente na escola;
  • pais de colegas nossos se negavam a nos convidar para festas porque nos consideravam “doidos” ou “problemáticos”;
  • algumas escolas criminosamente se recusavam a aceitar nossa matrícula por não correspondermos ao perfil de “normalidade” e “disciplina” que esperavam de seus alunos;
  • parentes nossos nos desrespeitavam e deixavam claro que não nos aceitavam do jeito que somos.
Inclusive uma moça (vide a imagem que ilustra este item) relatou no Facebook que, ao ler o abominável texto, passou mal.

Longe de ser uma mera opinião conservadora sobre o ambientalismo juvenil global, aquele texto punha em dúvida o reconhecimento das nossas capacidades e do nosso merecimento de direitos enquanto pessoas autistas.

Suas demandas por discriminação, no atual contexto político de hegemonia da direita radical, tinham o imenso potencial de inspirar um eventual projeto de lei que flexibilizasse as leis mencionadas mais acima e assim limitasse nossas liberdades, sob o pretexto de “proteger” as “tão frágeis” crianças “com autismo”.

Foi por isso que tomamos a mesma atitude que, por exemplo:
  • o movimento feminista quando se depara com algum artigo de opinião que incentiva o assédio sexual contra mulheres;
  • o movimento negro perante um conteúdo público que nega a capacidade de pessoas negras de se tornarem grandes políticos;
  • o movimento LGBT quando um ultraconservador discursa que pessoas não heterossexuais deveriam ser presas por “ameaçar a família brasileira”.


E quanto ao Estadão?


Sobre a providência do Estadão, quero responder que:
  • A empresa fez valer seu estatuto interno, aplicando a sanção prevista para casos de artigos preconceituosos que prejudicassem a reputação e a responsabilidade social da companhia e de seus veículos de comunicação;
  • O desligamento da autora do quadro de colaboradores não chegou a ser uma demanda direta nossa, ainda que tenha sido bem-vindo por nós;
  • O portal podia (e ainda pode) sim trazer uma nota pública oficial expressando que não endossa as opiniões do texto. Tanto foi que passei mais de uma semana insistindo à sua editoria que postasse uma retratação institucional que, além de pedir desculpas a todos nós, revelasse a real razão de suas medidas contra o artigo e sua autora;
  • Mas infelizmente o site não respondeu a esses pedidos. Quem tem a perder com essa atitude é o próprio Estadão, já que fica suscetível à eventual acusação de “censura” ao posicionamento político da ex-blogueira e não recuperou totalmente o respeito que muitos leitores autistas e familiares tinham por ele;
  • Se fosse previsto no estatuto interno, o portal poderia ter, por exemplo, exigido da autora uma retratação própria, a reescrita do artigo ofensor e a retirada do conteúdo preconceituoso; advertido-a para não postar mais textos apoiando qualquer forma de discriminação; convidado um autista militante para escrever um contraponto ou direito de resposta. Medidas como essa também teriam sido bem-vindas, uma vez que nossa demanda não era inflexível.


Seria melhor o artigo ter sido mantido no ar e apenas respondido com textos e vídeos contra-argumentativos?


A frase "Intolerância capacitista não se discute" aparece em cima de uma circunferência cortada. O logo da ONG anti-autismo Autism Speaks, caracterizado como um peça de quebra-cabeça azul junto ao nome da entidade também em azul, aparece envolto e cortado por uma circunferência trespassada por uma linha diagonal. Abaixo da circunferência está a frase "Se combate!"


Um outro argumento utilizado no podcast é que o movimento autista, ao invés de demandar do Estadão a derrubada do artigo capacitista, poderia simplesmente escrever artigos de resposta, tanto expressando indignação quanto refutando cada argumento presente nele.

Se realmente fosse um texto racional, que defendesse um ponto de vista com base em argumentos políticos e filosóficos, sem incitar comportamentos irracionais e intolerantes, isso teria sim sido feito, e não seria necessário exigir sua remoção do portal.

Mas infelizmente aquele conteúdo não tinha esse teor de debate. Muito pelo contrário, era um convite aos leitores para passarem a desprezar a luta e os posicionamentos de Greta Thunberg apenas por ela ser uma adolescente aspie, supostamente incapaz de pensar e agir por conta própria e “manipulada” por sua família e pela “extrema-esquerda” em função de ser uma “menor doente”.

Ou seja, incitava a intolerância capacitista. E, de fato, animou ainda mais as hordas de cyberbullies de extrema-direita que disparam insultos e mentiras contra os perfis da jovem ambientalista nas redes sociais - segundo os próprios participantes desse episódio do Introvertendo dizem reconhecer.

Em outras palavras, era um artigo irracionalista, focado não em argumentar e defender um posicionamento, mas sim em incitar o ódio aos coletivos e indivíduos que pensam diferente da autora dele. E posturas tão violentas e opressoras como essa não se discutem, se combatem, tal como pregam os movimentos antifascismo.

Porém, preciso deixar claro que, se o Estadão não tivesse atendido à nossa demanda de retirar As trancinhas teleguiadas… do ar, teria havido sim respostas em formato de textos e vídeos, incluindo minhas. Eu havia planejado escrever uma contra-argumentação que rebateria os discursos capacitistas e antiambientalistas do texto e os compararia aos discursos dos machistas contra as liberdades das mulheres, caso ele fosse mantido publicado.


Considerações finais


Respeito democraticamente a opinião dos integrantes do Introvertendo que não concordam integralmente com o ativismo que promovemos contra o artigo capacitista e a respectiva resposta do Estadão. Mas tenho que ressaltar que o posicionamento deles teria sido bem diferente se o texto inteiro fosse levado em consideração.

No mais, continuaremos lutando pelo fim do capacitismo e das apologias à discriminação contra nós autistas na imprensa brasileira. Sempre que aparecer um texto de opinião, ou uma matéria jornalística, que contenha linguajar preconceituoso e/ou chegue ao extremo de discursar contra nossa dignidade, nossas virtudes e nossos direitos, iremos protestar com veemência.

Demandaremos, do veículo de comunicação que o publicou, a sua reescrita, com a remoção de todo o conteúdo preconceituoso. Se o material em questão for explicitamente discriminatório e apologista do ódio, exigiremos sua completa remoção e, dependendo do caso, a responsabilização profissional e judicial do autor.

Seria muito bom se tudo fosse questão de divergência democrática e racional de ideias e, assim, pudesse ser resolvido com debates cordiais nos quais houvesse aprendizado mútuo. Mas infelizmente o artigo das “trancinhas teleguiadas” não correspondia a esse ideal, já que colocava em perigo nossos direitos como cidadãos autistas, incluindo nossas próprias liberdades de expressão e atuação política.

Por isso, tivemos que reivindicar sua deleção, já que, longe de debater com seriedade o ambientalismo ou a Síndrome de Asperger, ele expressava um desejo de que pessoas como Greta Thunberg e, por tabela, eu e os próprios membros do Introvertendo fossem proibidas de se integrar plenamente ao mundo e defender um futuro melhor tanto para o planeta e a humanidade quanto para nós mesmos.

Fecho este artigo reiterando: capacitistas, principalmente aqueles que desejam nosso mal e tentam bloquear nossa liberdade e felicidade, não passarão!