quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Discriminação contra autistas em livros de autoajuda: como obras que deveriam nos ajudar a viver melhor nos trazem mais sofrimento e frustração

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem mostra a capa do livro Comunicação Global, de Lair Ribeiro, um exemplo de autoajuda que discrimina autistas, e a legenda "Como livros de autoajuda exaltam habilidades neurotípicas, discriminam os autistas e lhes trazem sofrimento e frustração". Fim da descrição.

Aviso de conteúdo: Este artigo menciona capacitismo, discriminação contra autistas e problemas de autoestima. Continue lendo-o apenas se tiver certeza de que não sofrerá gatilhos psicológicos.
Obs.: Este artigo não debate a eficácia (ou falta dela) dos livros de autoajuda em ajudar os leitores a terem uma vida melhor. Ele pressupõe que algumas obras desse gênero, quando não excluem autistas, podem sim orientá-los nisso, ainda que de maneira limitada.

A discriminação contra autistas muitas vezes vem de onde nós menos esperamos: de livros de autoajuda e desenvolvimento pessoal e profissional.

Neles buscamos saber como viver vidas mais produtivas e felizes, como termos mais resultados positivos no nosso trabalho, como fazer mais amizades etc. Mas o que encontramos em muitas dessas obras nos causa, na verdade, uma imensa frustração e muito sofrimento.

Saiba neste artigo como a exclusão capacitista de autistas tem sido comum nesse tipo de livro e o que precisa ser feito para pelo menos diminuir isso.

Como a autoajuda tem tratado os autistas como se não existissem ou fossem inferiores

A imensa maioria dos livros de autoajuda é direcionada unicamente para neurotípicos, porém não especifica esse foco. Ou seja, foram pensados e escritos de maneira tal que é como se autistas não existissem ou não fossem dignos de consideração.

Têm entre seus focos o domínio de habilidades sociais e do uso e compreensão da linguagem não verbal. Não no sentido de ensinar o leitor a adquiri-las ou melhorá-las caso as tenha pouco - o que seria muito bem-vindo para o público autista -, mas sim no de ressaltar que só quem as domina com plenitude tem chances significativas de ser aceito e prestigiado na sociedade.

Deixam claro que saber habilidades extremamente difíceis - quando não impossíveis - para autistas, como o contato visual, o rapport, a gesticulação manual, a transmissão de mensagens implícitas por meio dos movimentos dos olhos, a fala com muita clareza e fluidez e a postura corporal em cada situação, é decisivo para o sucesso, o cultivo de amizades e a felicidade. 

Subentendem, ou até deixam explícito, que quem não é hábil com tudo isso tende a permanecer com uma vida de baixa qualidade e nunca ser bem-sucedido na vida pessoal e profissional.

Ao tomar isso como uma verdade a ser aceita e não questionada e incentivar que o leitor respeite e admire mais quem domina todas essas habilidades do que quem tem dificuldade de assimilá-las, a autoajuda incentiva ativamente a discriminação contra autistas.

Exalta o comportamento neurotípico como o único que deve ser aceito e apreciado. Hierarquiza as pessoas nas relações humanas, colocando:

  1. Os dominadores de habilidades sociais e comunicacionais no topo, como os mais dignos de aceitação, respeito, prestígio e sucesso;
  2. Os neurotípicos não tão hábeis mas que podem aprendê-las sem grandes dificuldades na camada intermediária;
  3. Os autistas, que na maioria dos casos não conseguem dominá-las por mais que se esforcem, na mais inferior, fadadas a uma vida de fracassos e à margem das relações humanas.

Os autores geralmente não intencionam inferiorizar os autistas e incentivar a discriminação. Só que eles, na maioria das vezes, não sabem da existência dos de nível 1 (antigos aspies). Provavelmente só reconhecem como autistas “de verdade” aqueles de níveis mais avançados de necessidade de apoio, com limitações muito significativas de comunicação.

Por isso, acreditam que todos aqueles que leem seus livros têm o mesmo potencial de aprender essas habilidades. Que só existem neurotípicos nas ocasiões sociais. Não admitem que existem aqueles cuja condição neurológica as limita (pelo menos na comunicação com não autistas) e dificulta esse aprendizado.

A frustração do autista que não encontra apoio nesses livros

Descrição da imagem #PraCegoVer: Uma mulher branca de cabelos castanhos e louros de tamanho médio e um homem também branco de cabelo preto curto, ambos usando camisas com listras, horizontais, olham nos olhos um do outro. Fim da descrição.
Contato visual, uma das habilidades mais difíceis para a maioria dos autistas e uma das mais exaltadas por livros de autoajuda

Por causa da abordagem capacitista e invisibilizadora dos livros de autoajuda, o leitor autista quase certamente encontrará nada além de frustração e vergonha de si mesmo.

O impacto psicológico de saber que a felicidade, o sucesso e a prosperidade, segundo essas obras, estão condicionados a habilidades que ele provavelmente nunca conseguirá dominar é terrível.

Ele tentará imitar essas habilidades, considerando que muito raramente um livro desse gênero ensina um passo a passo compatível com as limitações autísticas, mas essa cópia não será bem-sucedida. No máximo servirá como “máscara” social para o autista temporariamente parecer neurotípico aos olhos da sociedade.

Desanimado por não conseguir o mesmo êxito dos neurotípicos, se sentirá um fracassado. Sua autoestima, que provavelmente já era baixa, cai ainda mais.

E mais uma vez o autista sofre as consequências da discriminação e é induzido a acreditar que o problema está nele mesmo, não no capacitismo da sociedade.

O que fazer para diminuir esse problema

O que os autores de autoajuda podem fazer para que seus livros deixem de considerar a existência apenas de neurotípicos é, em primeiro lugar, se conscientizar sobre nós autistas.

Devem conhecer nossas limitações, capacidades, necessidades específicas. Entender que tendemos a não nos encaixar no perfil que eles acreditam ser o único “normal” de habilidades sociais e comunicacionais.

A partir disso, pedirão para as editoras inserirem, nas próximas reimpressões de seus livros, um aviso de conteúdo de que autistas poderão ter dificuldades de aplicar os ensinamentos ali presentes. Isso seria uma medida provisória até que futuras edições dessas obras e títulos inéditos fossem lançados incluindo e respeitando devidamente a diversidade neurológica e comunicacional.

Nessas futuras obras mais inclusivas, a abordagem deverá deixar de lado a discriminatória ideia de que as habilidades de comunicação e socialização neurotípicas são “essenciais” para as pessoas serem felizes e aceitas.

Precisará incentivar que os não autistas considerem as especificidades dos neurodiversos, abandonem as velhas exigências e expectativas de comportamento centradas nos padrões neurotípicos e nos aceitem do jeito que somos sem demandar que nos ajustemos a estes.

Daí então veremos o gênero de autoajuda deixar de ser o foco de discriminação capacitista que é hoje.

Conclusão

Os autores de autoajuda precisam urgentemente se conscientizar sobre nós autistas e nosso jeito de ser. Está na hora de perceberem que seus livros muitas vezes nos fazem mais mal do que bem ao exaltarem o domínio de habilidades exclusivas dos neurotípicos e o considerarem obrigatório para uma vida feliz e bem-sucedida.

Estamos fartos de ser vistos como exemplos de pessoas malsucedidas, fracassadas, condenadas a sofrer pelo resto da vida por não serem como os não autistas. Porque é isso que essas obras deixam a entender para os seus leitores.

Queremos uma literatura de desenvolvimento pessoal e profissional inclusiva, que reconheça e respeite a nossa existência, considere nossas limitações e ajude tanto a nós quanto aos neurotípicos. Que não exija mais que todos tenham as mesmas habilidades de comunicação e socialização para merecerem o mesmo sucesso na vida. Que contemple a neurodiversidade.

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