sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Um triste fato: características do autismo são vistas como “fraquezas” e “defeitos de caráter” pela sociedade

Descrição da imagem #PraCegoVer: Um homem à esquerda, vestido com camisa social, e uma mulher à direita, vestida com blusa de manga curta, ambos sentados, olham nos olhos um do outro. Fim da descrição.
Contato visual, uma das formas de comunicação não verbal mais valorizadas pelos neurotípicos e cuja ausência ou presença reduzida nos autistas os faz ser alvo de discriminação

Aviso de conteúdo: Este artigo contém trechos de livros capacitistas que naturalizam ou incentivam a discriminação contra autistas e resume as consequências desse capacitismo. Continue lendo este artigo apenas se tiver segurança de que não sofrerá gatilhos traumáticos.

Algo infelizmente muito comum, mas que talvez você ainda não tenha percebido, é que, por capacitismo e pela não compreensão da maioria dos neurotípicos sobre o autismo, muitas dificuldades e comportamentos típicos da condição são muito mal vistas pela sociedade.

É muito frequente que as formas de expressão, conduta e comunicação interpessoal caras a nós autistas sejam consideradas fraquezas, comportamentos ruins, até mesmo indícios de falha de caráter. Que o ser humano “íntegro”, “forte”, “virtuoso” e “confiável” tem características opostas às nossas.

Neste artigo quero conscientizar você sobre essa forma de discriminação que sofremos ao longo de nossas vidas, e convidar você a pensar sobre isso e ajudar a combatê-la.

Alguns dos nossos comportamentos e dificuldades vistos como “defeitos” e “falhas de caráter” pela sociedade capacitista

Imagine que fosse muito disseminado, em livros de autoajuda, comunicação interpessoal, coaching, motivação e temas correlatos, que ter o domínio da capacidade de andar e correr com as pernas é uma “virtude fundamental” para ser um ser humano respeitado e bem sucedido.

Que os “grandes homens e mulheres” eram ou são aqueles(as) que têm as melhores habilidades físicas e atléticas com os membros inferiores do corpo. E que não usá-los tal como esses exemplares indivíduos é uma “fraqueza”

Ou, pior, um sinal de que a pessoa é “pouco honesta” e “pouco confiável” e, por isso, tende a ter seus discursos pouco valorizados e não ser escolhida para projetos.

Absurda essa situação, uma clara discriminação contra cadeirantes e pessoas com outras deficiências físicas e mobilidade reduzida, não é? Pois é o que acontece com nós autistas em função de nossas dificuldades e formas peculiares de nos comportar e nos comunicar.

São comumente vistas como “desvirtudes” e “má conduta” características como:

  • Ter dificuldades de olhar nos olhos de outras pessoas, não os olhando ou desviando-os do contato visual para diminuir a sensação de sobrecarga sensorial e mental;
  • Ser muito sincero, falando a verdade de forma forte, quando o outro não está muito interessado em ouvi-la ou em momentos considerados “inconvenientes”;
  • Não entender, ou ter dificuldade de entender, a linguagem corporal tanto de si mesmo quanto do interlocutor;
  • Não conseguir entender as mensagens implícitas nas entrelinhas do que o outro lhe fala;
  • Não saber escolher as melhores palavras para expressar o que sente, o que acha da outra pessoa, se gosta ou não do presente etc.;
  • Comportamento frequentemente ansioso, no qual o autista passa aos neurotípicos a impressão de estar nervoso e inseguro;
  • Discursar em conversas com um foco muito forte na sua área de interesse especial e dar pouca atenção a outros assuntos;
  • Não conseguir ler os sinais não verbais do que o interlocutor neurotípico está sentindo e pensando sobre o autista.

Alguns exemplos dessa visão negativa e capacitista em livros de autoajuda

Descrição da imagem #PraCegoVer: A ambientalista autista Greta Thunberg, ao discursar perante a ONU em 2019, faz expressão facial de indignação, o que a fez ser muito malvista e insultada por capacitistas na época. Fim da descrição.
Por causa de suas expressões faciais que diferem das dos neurotípicos, Greta Thunberg sofreu muitos ataques capacitistas após seus discursos

Os livros de autoajuda que enfocam comunicação e relações interpessoais são os melhores exemplos de como nossos comportamentos e dificuldades são mal vistos pela sociedade.

Um deles que naturaliza esse tipo de discriminação contra autistas é o livro A primeira impressão é a que fica, de Ann Demarais e Valerie White. No Capítulo 5, temos o desprazer de ler trechos como esses (grifos meus):

“O contato pelos olhos é um claro indício de interesse. Normalmente olhamos as pessoas nos olhos na maior parte do tempo em que estamos falando com elas ou ouvindo-as, e isto é sinal de que estamos interessados, que somos sinceros e de que nos sentimos à vontade naquela situação. Quem desvia o olhar pode inadvertidamente estar enviando mensagens de falta de interesse ou até mesmo de falta de sinceridade.”

“...aqueles que tinham mantido um baixo nível de contato visual haviam deixado uma imagem negativa em vários aspectos. Causaram a impressão de serem mais superficiais, menos agradáveis em termos sociais e menos confiáveis do que os que tinham mantido contato visual em níveis médios ou altos.”

“Num primeiro encontro você parecerá mais interessante do ponto de vista social e mais simpático se mantiver contatos visuais em níveis normais e sustentar olhares atentos nos padrões habituais.”

“De volta ao escritório, a consultora perguntou a Jerry sobre seu estilo reservado. Ele explicou que quando encontra pessoas novas mostra-se um pouco contido e fica observando-as, vendo como se colocam e reagem a ele. Então decide como se sente a respeito delas. Sua consultora lhe explicou que, embora observar os outros possa ser uma boa maneira de encontrar uma abertura por onde se conectar com eles, o seu estilo muito contido enviava sem querer uma mensagem: a de que ele estava entediado, desinteressado ou pouco à vontade com Susan. Enquanto está reunindo informações para ver se gosta de alguém, ele ao mesmo tempo está criando um ambiente que dificilmente trará à tona o que existe de melhor no outro. Não dar um tom positivo significa, na prática, dar um tom negativo. A falta de participação por parte de Jerry faz com que as pessoas pensem que ele não está interessado nelas, o que o torna menos simpático para elas.

Jerry poderia adotar um tom mais positivo simplesmente agindo como se esperasse gostar de Susan. Poderia ter conquistado mais prontamente a simpatia dela se tivesse se envolvido imediatamente na conversa, respondendo às suas perguntas e transmitindo mais energia através da sua linguagem corporal - sorrindo e se inclinando na sua direção.”

Outro exemplo que me chamou a atenção foi o livro brasileiro Pílulas de bem-estar, que diz coisas como:

“Mas quanto tempo um olhar deve durar para não ser esquisito? Se a pergunta em si já soa estranha, experimente conversar com pessoas que desviam o olhar o tempo todo, incapazes de encarar você por uma fração de segundo sequer. Ou preste atenção em como se sente quando alguém mantém os olhos fixos nos seus, sem intervalo, durante longos segundos. Se o primeiro grupo parece inseguro e suspeito, o segundo parece agressivo, talvez amedrontador.”

“No conto ‘A carta roubada’, por exemplo, [...] Edgar Allan Poe nos apresenta um menino que, de forma impressionante, nunca perdia um jogo de par ou ímpar feito com bolinhas de gude. Ele tinha um truque para adivinhar o pensamento dos seus oponentes: ‘Quando quero saber até que ponto alguém é inteligente, idiota, bom ou mau, ou o que ele está pensando, eu modelo a expressão do meu rosto, tentando imitar o melhor possível a expressão dessa pessoa, e, depois, espero para ver que sentimentos ou pensamentos surgem no meu cérebro ou no meu coração, para combinar ou corresponder à expressão.’”

E o livro A arte de se fazer respeitar, de Barbara Berckhan, diz em um trecho:

“Você vai perceber como esta estratégia de autoafirmação é simples e clara assim que a colocar em prática. Na verdade, você só precisa eliminar todos os hábitos e comportamentos que o diminuam ou o rebaixem, libertando-se do nervosismo e da ansiedade. Ao fazer isso, você irá resgatar algo que sempre teve: sua postura natural. Dessa maneira, você conseguirá se manter centrado e transmitir segurança.

A postura régia não é artificial nem exagerada. É apenas a que você adota quando está completamente seguro de si.

Quando começam a praticar essa técnica, as pessoas tendem a exagerar, esforçando-se além da conta, o que faz a postura parecer um pouco forçada. Com isso, ficam como soldadinhos de chumbo prendendo a respiração e permanecendo imóveis. Tente encontrar um meio-termo, mantendo-se ereto sem se enrijecer demais. Portanto, enquanto estiver de pé ou caminhando, relaxe, mas não abandone a postura.

Ao adotar a postura régia, mantenha o corpo ereto mas relaxado, transmitindo segurança de maneira natural. Com ela, você descobrirá uma determinação serena e a capacidade de se superar constantemente. Sentar-se ou ficar de pé majestosamente garante que você esteja sempre com uma postura digna, mostrando que é respeitável.”

Como essas mensagens passam uma terrível impressão sobre os autistas

Em todos esses casos, formas autísticas de se comportar e se comunicar são vistas como indesejáveis desvios da “normalidade”, sinais de que a pessoa seria pouco sincera e até não confiável. Passa-se a ideia de que é “natural” não serem respeitadas do jeito que são e, por isso, devem se forçar a imitar um perfil específico de neurotípicos para que “mostrem que são respeitáveis”.

Deixa-se a entender que a forma como o autista se expressa faz dele um “idiota”, “antipático”, “desinteressante”, até mesmo um “malvado em potencial”, e que é normal e aceitável que seja assim. Que ele deve “corrigi-la” se quiser ser benquisto, aceito e incluído nos círculos sociais um mínimo que seja.

A óbvia consequência disso é que nós permanecemos sofrendo discriminação em nosso cotidiano, sendo maltratados simplesmente por sermos quem somos.

Somos forçados a mascarar e reprimir nossos comportamentos autísticos, senão sofreremos com esse esmagador preconceito. E geralmente essa tentativa de mascaração ou não dá certo e deixa “escapar” nosso desalinhamento com o padrão de comportamento neurotípico, ou é conseguida com um esforço mental gigantesco que nos deixa severamente exaustos e debilitados.

Com isso, somos eternamente vistos como párias, como indivíduos que poucos querem ter por perto, por mais que sejamos dignos e virtuosos e tenhamos coisas boas a oferecer para as outras pessoas.

Conclusão

Com o apoio de livros de autoajuda cujos ensinamentos deixam a entender que só existem neurotípicos no mundo, nossos comportamentos e dificuldades como autistas têm sido demonizados. E isso tem ajudado a perpetuar a discriminação capacitista contra nós.

Desde já, eu gostaria que você percebesse isso e começasse a questionar por que se insiste em vender esse modelo comportamental defendido pelos manuais de comunicação interpessoal como o único possível e aceitável, mesmo havendo pessoas que, por sua natureza neurológica diferente, não se encaixam e nunca se encaixarão nele.

Esse capacitismo que prega a intolerância contra padrões de linguagem diferentes da norma neurotípica precisa acabar. Espero que, a partir de hoje, você se conscientize disso e reveja sua forma de pressupor, através de “sinais” não verbais, os estados mentais e a retidão moral de quem interage com você.

2 comentários:

  1. Muito bem exposto, embora não acredite que esse seja o pior lado da violência capacitista. Colocar alunos com dificuldades de processamento sensorial nas mesmas salas ruidosas dos neurotípicos ou não considerar-lhes a neurodiversidade durante o processo de avaliação em uma escola são, a meu ver, aspectos muito mais brutais de um capacitismo tácito.

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    1. Pois é, esse que vc mencionou é um tipo de violência capacitista bem comum.

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