sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Por que a defesa da “cura do autismo” é tão nociva quanto a da “cura gay”

"Cura do autismo" não existe e nunca existirá, e defendê-la é algo parecido com defender a infame "cura gay". Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem exibe, na metade esquerda, a expressão "Como entender e curar o autismo", havendo um círculo com linha diagonal por cima de "curar o autismo". E na metade direita, está a foto de um menino pequeno possivelmente autista deitado ao lado de uma pilha de peças de madeira e, ao lado de "curar o autismo", o aviso de que "Cura do autismo não existe!". Fim da descrição.
"Cura do autismo" não existe e nunca existirá, e defendê-la é algo parecido com defender a infame "cura gay".

Aviso de conteúdo: Este artigo menciona a capacitista defesa da “cura do autismo” e a LGBTfobia da “cura gay”. Leia-o apenas se tiver segurança de que não sofrerá gatilhos emocionais e traumáticos.

Muitas pessoas estão defendendo ou apoiando que, num futuro próximo, seja descoberta e disseminada a “cura do autismo”.

Afinal, segundo dizem, quem é autista “deixaria de sofrer” com as dificuldades da condição se deixasse de “ter autismo”.

Mas a ideia de que nós autistas “precisamos ser curados” possui diversos problemas éticos e sequer é sustentada pela Biologia.

Convido você a descobrir, neste artigo, por que defender a “cura autista” não é tão diferente assim do suporte à infame “cura gay”.


O que é e como seria a “cura do autismo”?


Antes de tudo, precisamos definir adequadamente: o que é “curar o autismo”?

“Curar” a condição seria basicamente converter um autista em neurotípico. Teoricamente eliminaria tanto os aspectos potencialmente negativos do autismo, como a dificuldade de se socializar e de compreender linguagem não verbal e a propensão a sobrecarga sensorial e a meltdowns, quanto os positivos, como a inteligência elevada de muitos, a personalidade autêntica e o desgosto por jogos psicológicos.

Os defensores da “cura” idealizam que, depois de ser “curado”, o “ex-autista” adotaria sem dificuldades todo o padrão de comportamentos neurotípicos de sua cultura. Se tornaria sociável, fluente em comunicação não verbal, imune à antiga reação intensa aos estímulos sensoriais, medianamente inteligente, respeitado pelos outros neurotípicos etc.


Por que muitos defendem ou apoiam que o autismo “precisa ser curado”?


Muitos neurotípicos e, infelizmente, uma parte dos autistas defendem que deveria ser descoberta e disponibilizada uma “cura” para o espectro autista.

Ambas as categorias têm essa crença, sobretudo, porque acreditam que o autismo é uma “doença”, um “defeito” ou, no mínimo, uma condição que intrinsecamente faria muito mais mal do que bem.
Os neurotípicos pró-”cura” também a desejam por diversos outros motivos, como os de que:
  • Os mais compassivos, principalmente mães e pais de autistas, sentem misericórdia quando autistas sofrem com meltdowns, depressão, crises de ansiedade, discriminação, maus tratos e outros problemas que possivelmente não viveriam se não fossem autistas;
  • Acreditam que o mundo seria “melhor” se o autismo fosse, de alguma maneira, erradicado e todos os autistas fossem convertidos em neurotípicos;
  • Estão defendendo seus próprios interesses comerciais, já que ganham dinheiro ao terem suas pesquisas em busca da “cura” financiadas ou ficariam ricos se pudessem vender a “solução contra o autismo”.

Já os autistas partidários dessa ideia a defendem porque, entre outras razões:
  • Não aguentam mais sofrer discriminação, piadinhas, bullying e outros maus tratos por não serem neurotípicos;
  • Sonham com um dia em que poderiam ser como seus colegas neurotípicos e se socializar, namorar, usar linguagem não verbal, viver de festas etc. sem dificuldades e não sofreriam mais com sobrecarga sensorial, seletividade alimentar, condições coexistentes etc.;
  • Foram convencidos, de alguma maneira, de que seriam portadores de uma “patologia” e poderiam ser “curados” e que sua vida seria melhor se fossem convertidos em neurotípicos.


Por que “curar o autismo” é impossível?

Longe de ser uma "patologia", o autismo é uma configuração cerebral sistemática inteira. "Curá-lo" implicaria descartar por completo o cérebro do autista. Descrição da imagem #PraCegoVer: Comparação colorida de duas funções neurais (que eu não entendi bem) entre o cérebro da autista Temple Grandin, com uma ampla área rosa e uma pequena área azul, e o de uma pessoa neurotípica, com a área rosa menor e a azul maior. Fim da descrição.
Longe de ser uma "patologia", o autismo é uma configuração cerebral sistemática inteira. "Curá-lo" implicaria descartar por completo o cérebro do autista.
Apesar de muitos sonharem com um dia em que todos que hoje são autistas virariam neurotípicos e acreditarem que a nossa vida seria muito melhor com isso, a ideia da “cura do autismo” é extremamente problemática e também biologicamente impossível.

Afinal, dizer que o autismo poderia futuramente ser “curado” é partir de pressupostos falsos sobre o que é o autismo.

Na verdade, longe de ser um conjunto de sintomas patológicos, o autismo é basicamente uma configuração cerebral sistemática com a qual já nascemos e que vem desde os nossos genes. O cérebro autista é inerentemente bastante diferente do cérebro não autista, assim como o DNA do autista é necessariamente distinto do DNA do neurotípico.

O cérebro neurodiverso possui redes de conexões neuronais e configurações genéticas que o neurotípico não tem. E o conjunto dessas redes e genes é, digamos, a versão científica da nossa alma.

É ele que determina que os nossos sentidos funcionem de maneira diferente dos dos neurotípicos. Que nosso sistema digestório tenha ou não intolerância a determinados alimentos. Que nosso corpo tenha ou não determinadas alergias. Que nossos órgãos sejam influenciados de uma maneira ou de outra pelas nossas reações aos estímulos físicos e mentais externos.

Além disso, ser autista, longe de ser “doente” e “problemático”, é ter todo um jeito de ser, um perfil de personalidade, uma identidade individual inteiros vinculados ao fato de termos um cérebro e genética diferentes.

O nosso sistema neural e nosso DNA determinam, com o importante auxílio da nossa interação com o mundo e da maneira de que somos tratados, o quanto somos honestos, curiosos, inteligentes, empáticos, apaixonados nas áreas de conhecimento que são nosso hiperfoco, sinceros, adeptos de humor excêntrico, questionadores das injustiças do mundo etc.

Ou seja, não “temos autismo”. Somos autistas por inteiro. O autismo é uma parte vital de nós.
Ser autista é algo tão profundo e inseparável do que somos que, se algum fenômeno impossível acontecesse e fizesse uma pessoa deixar de ser autista, seu eu atual deixaria de existir. Daria lugar, no mesmo corpo, a um indivíduo totalmente diferente, com outros traços de personalidade, outros gostos, outros desejos, outra maneira de interagir com o mundo e outra consciência neurológica.

Em outras palavras, o autista morreria, e seu corpo passaria a ser habitado por outra pessoa, a qual teria que, tal como um bebê recém-nascido, aprender tudo do zero.

Portanto, como o autismo é uma parte de nossa biologia e do nosso eu, é impossível falar de “curar o autismo” sem falar de aniquilar nossos cérebros, partes fundamentais de nosso corpo e todas as moléculas de DNA das nossas trilhões de células e matar as pessoas que somos. Ou então, sem incorrer em crenças falsas e pseudocientíficas sobre o que é o autismo.


Por que, afinal de contas, falar de “curar o autismo” é tão parecido com acreditar na “cura gay”?


Diante de todos esses fatos, é até lógico lembrarmos das infames terapias de “reorientação sexual”, mais conhecidas como “cura gay”, quando alguém diz que sonha com a “cura do autismo”.

Afinal:
  • Ambas se baseiam em preconceitos, crenças erradas sobre a natureza humana, pseudociências, conversão de diferenças humanas em desigualdade moral e defesa da eliminação intolerante das diferenças;
  • A “cura do autismo” parte de crenças falsas, como as de que a neurotipia seria a única configuração cerebral e genética humana natural e o autismo seria uma doença que a pessoa “porta”, teria causas ambientais e poderia ser revertida. Similarmente, algumas crenças erradas que fundamentam a defesa da “cura gay” são as de que a homo ou bissexualidade seria um comportamento socialmente aprendido, que Deus (ou os Deuses) só criou seres humanos biologicamente heterossexuais e que o cérebro humano permitiria a conversão de orientação sexual;
  • A “cura autista” tem uma fundamentação moral capacitista, que odeia e não tolera a existência de grandes diferenças cerebrais e de neurodesenvolvimento. Já a “cura gay” se sustenta numa base de valores LGBTfóbica, marcada pela não aceitação da existência das orientações sexuais não héteros;
  • Ambas defendem que autistas e LGBTs são moralmente inferiores aos neurotípicos heterossexuais e condicionam o seu merecimento de aceitação e respeito à sua conversão às categorias sociais dos “superiores”;
  • Advogam que o mundo seria “melhor” se só existissem pessoas “iguais”, conformes a um determinado padrão, ou seja, apenas neurotípicos e apenas heterossexuais;
  • Pregam que um dos “problemas” do mundo é existirem pessoas que não se encaixam nesses padrões, e que a “solução” seria as diferenças desviantes do padrão deixarem de existir, e não a sociedade aceitá-las e acolhê-las;
  • Tentam “curar” algo que nós somos. Confundem jeitos de ser inteiros com “doenças”, “erros” ou “pecados”;
  • Uma desculpa muito usada nos dois casos é que o defensor da “cura” quer que autistas ou LGBTs “deixem de sofrer” com o preconceito alheio;
  • A ideia de que autistas e LGBTs deveriam ser “curados” impulsiona a discriminação, a violência intolerante, o tratamento desumanizador e outros abusos contra ambas as categorias;
  • Tanto terapias de “reorientação sexual” quanto “soluções” que “curariam” o autismo têm trazido violências inimagináveis, incluindo mortes (leia sobre pessoas que morreram ou podem ter morrido sob terapias de “cura gay” e sob “soluções” de “cura do autismo”).


Conclusão

"Eu sou bonito do meu jeito, porque Deus não comete erros. Estou no caminho certo, porque eu nasci assim" - Lady Gaga. Trecho da música "Born This Way" que se aplica tanto a LGBTs quanto aos autistas. Descrição da imagem #PraCegoVer: Trecho da música "Born This Way", de Lady Gaga, que, traduzido, diz: "Eu sou bonita do meu jeito, porque Deus não comete erros. Estou no caminho certo, porque eu nasci assim". Fim da descrição.
"Eu sou bonita do meu jeito, porque Deus não comete erros. Estou no caminho certo, porque eu nasci assim" - Lady Gaga. Trecho da música "Born This Way" que se aplica tanto a LGBTs quanto aos autistas.
Se você ainda acredita que autistas deveriam ser “curados” para “parar de sofrer”, lamento dizer, mas você precisa repensar essa crença, pois ela é biologicamente impossível e, sobretudo, alicerçada em preconceito e crenças falsas.

Nós autistas não podemos nem queremos (com algumas infelizes exceções de autistas pró-”cura”) ser “curados”, já que uma tentativa de nos “curar” implicaria descartar nosso cérebro e nosso DNA, substituindo-os pelos de outra pessoa, e, portanto, nos mataria.

O que queremos mesmo é ser aceitos, respeitados e incluídos do jeito que somos e ter nossas necessidades específicas reconhecidas e integralmente atendidas. A única coisa que queremos ver sendo curada é o preconceito de quem sonha que algum dia os autistas deixem de existir.

Portanto, ao invés de tentar nos “curar”, cure o seu capacitismo e, então, nos aceite de maneira plena e incondicional.

Um comentário:

  1. Triste viver num país onde a mera possibilidade de uma "cura" gay é impudentemente aventada. Foi, entretanto, um ótio critério de comparação.

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