quarta-feira, 4 de março de 2020

Como consegui meu diagnóstico e laudo de autismo “leve” - e uma dica para aumentar as chances de você também conseguir

Descrição da imagem #PraCegoVer: Uma figura clipart de uma lista com tópicos pregada numa prancha. Fim da descrição.
Uma lista de características autísticas: o segredo para eu ter conseguido meu diagnóstico. Saiba mais sobre essa lista mais a seguir no artigo.
Em 4 de dezembro de 2019, eu consegui uma memorável vitória.

Depois de dois anos e nove meses de luta, obtive o diagnóstico oficial e o laudo de autismo “leve”, numa clínica conveniada ao meu plano de saúde.

Esse êxito se deu tanto à minha sorte de ter encontrado, na surpresa, um psiquiatra que atende e lauda adultos autistas de nível 1 (também conhecidos como autistas “leves” ou aspies) quanto por uma estratégia bem-sucedida que apliquei.

Quero contar, neste artigo, como foi a minha trajetória para obter essa sonhada constatação oficial de minha condição neurodiversa e qual foi o método que eu usei para construir um “atalho” para consegui-la, sem ter precisado passar por avaliações mais demoradas que me custariam caro.

Espero incentivar você a continuar lutando pelo seu diagnóstico, caso ainda não o tenha, e pensar como facilitar essa busca.

A luta para encontrar alguém capaz de me diagnosticar e me laudar

Minha trajetória até achar um psiquiatra habilitado para me laudar durou entre março de 2017, quando minha namorada, ao estudar a Síndrome de Asperger, me identificou com a condição, e dezembro de 2019.

Ao longo do primeiro ano dessa busca, contatei o meu plano de saúde para saber se havia algum psicólogo, psiquiatra, neuropsicólogo ou neuropsiquiatra que atendesse e diagnosticasse autistas adultos. Os atendentes tentavam me indicar alguém, mas nenhum realmente entendia de autismo nível 1 em adultos.

Um dos indicados, um neurologista que não entende de autismo, tanto que chamava autismo de doença, chegou a fazer exames para ver se eu tinha, segundo ele, alguma “alteração” cerebral que estivesse causando a manifestação das minhas características autísticas.

Evidentemente o exame, que inclusive me expôs a um intenso e potencialmente perigoso piscar de luzes brancas, nada encontrou, até porque atualmente não existe exame neurológico que detecte autismo.

Em 2017, falei ao psiquiatra que me fornecia receitas do Orap, que eu tomava para controlar os tiques e a hiperatividade, que eu suspeitava ter características autísticas. Só que ele, desinformado e preconceituoso, disse que eu “não sou autista” porque “autistas não são capazes de falar e se comunicar”. Essa crença errada, mais o fato de ele ter receitado um antidepressivo contraindicado para usuários de Orap, me fez deixá-lo e procurar outro psiquiatra na mesma clínica.

No mês seguinte, comecei a ter consultas com esse outro psiquiatra que, segundo deixou a entender na primeira consulta, poderia sim verificar se eu sou autista.

Só que, em maio de 2018, ele me falou, inaceitavelmente, que minhas características me permitiam ter uma “vida normal”, minha dificuldade de encontrar um emprego era “a mesma” de milhões de neurotípicos na época e, portanto, eu “não precisava” de um diagnóstico.

Perguntei se ele só sabia verificar autismo clássico, e ele disse que sim, que não trabalhava com autismo “leve” - informação omitida nas consultas anteriores. Saí arrasado da clínica, para nunca mais voltar lá.

Continuei a procura no plano e no SUS. O psicólogo que me atendeu entre junho e setembro atendia autistas adultos, mas não era habilitado para constatar minha condição e me encaminhar a um psiquiatra que fechasse o diagnóstico.
E o psiquiatra com quem me consultei depois de ter deixado o anterior falou que eu teria que procurar um neuropsiquiatra ou neuropsicólogo para obter o parecer que serviria para esse psiquiatra assinar meu laudo.

Na busca, descobri uma neuropsicóloga particular, não conveniada a nenhum plano de saúde, que, em seis sessões, poderia me avaliar e escrever esse parecer. Só que ela cobrava 200 reais por sessão, totalizando R$1.200, dinheiro que nem eu nem minha família tínhamos. Por isso não pude recorrer a ela.

Busquei também nos CAPS do Recife e no Hospital da Clínicas da UFPE alguém que pudesse me laudar. Não encontrei ninguém.

Frustrado, mas esperançoso de que um dia poderia pagar a neuropsicóloga e ter as sessões com ela, toquei minha vida para frente. Por falta de condições financeiras, deixei o plano de saúde em outubro de 2018 e passei quase um ano sem nenhum atendimento médico e psicológico.

Até que, em setembro do ano passado, meu irmão começou a pagar um plano, da mesma operadora, para ele e me colocou como dependente. Reiniciei a procura por um especialista que atendesse e laudasse autistas adultos.

Uma atendente chegou a marcar uma psicóloga que, aparentemente, entendia da condição, mas por causa da carência nos três primeiros meses, que impedia o meu acesso a psicoterapia, e pelo relógio biológico bagunçado, não consegui ser consultado por ela.

Mas em outubro, numa agradável surpresa, as coisas mudaram.

Outubro a dezembro de 2019: a vitória de conseguir meu diagnóstico e laudo de autismo “leve”

Descrição da imagem #PraCegoVer: Uma imagem, obtida do Google Street View, da fachada da clínica Centromed & Terapias, no Recife. A clínica possui a arquitetura de uma casa geminada antiga típica do começo do século 20, com duas janelas, uma na esquerda e uma no centro, e uma porta de entrada no canto direito. No rodapé da imagem, está o logotipo do Google. Fim da descrição.
Centromed & Terapias, a clínica que me assegurou a vitória na luta pelo diagnóstico e laudo
Aqui está a melhor parte do meu relato. E é nela que você saberá a seguir como pode, caso tenha boas habilidades de escrita e boa capacidade de memória de longo prazo, facilitar a obtenção do seu laudo de autismo.

Em outubro, logo quando acabou o prazo de carência para consultas com psiquiatra no plano de saúde, eu procurei um psiquiatra conveniado, só que não estava conseguindo encontrar um que tivesse vaga para novos pacientes e atendesse a curto prazo.

Eu queria ser consultado em pouco tempo porque precisava de receitas para a risperidona (medicamento que sucedeu o Orap no controle dos tiques e da hiperatividade) e a paroxetina (antidepressivo), cujas minhas caixas estavam no fim.

Então eu pedi para o SAC do plano marcar para mim um psiquiatra que fosse encontrado com essa disponibilidade. Três dias depois, responderam marcando uma consulta com o dr. Carlos José Vasconcelos, da Centromed, uma pequena e modesta clínica no bairro recifense das Graças, perto dos hospitais da Restauração e Santa Joana.

No dia da consulta, a clínica estava atipicamente lotada, e havia muitos na minha frente. Na ansiedade e expectativa de simplesmente conseguir as receitas dos remédios, pedi que a recepção tentasse me encaixar logo. Eu estava me sentindo desconfortável na sala de espera, que não tinha ar condicionado e estava cheia, e aguentei a espera assistindo a vídeos no meu tablet.

Eu havia chegado pouco depois das 14h, e acabei tendo minha consulta depois das 18h. Porém, posso dizer com propriedade, a espera valeu a pena.

Pouco antes de eu ser atendido, vi que um casal estava na fila com seu filho autista de nível 2, e já pensei: “Hummm, então o psiquiatra atende autistas também, que massa.”

Depois que esse menino foi atendido, chegou a minha tão aguardada vez. Me sentei diante da mesa dele, e uma das primeiras coisas que eu fiz foi perguntar ao dr. Carlos José se ele também atendia adultos autistas.

Ele disse que sim. Também respondeu afirmativamente quando eu perguntei, logo em seguida, se ele atendia adultos autistas “leves”. E, o melhor, quando perguntei se ele poderia dar diagnóstico e laudo de autismo “leve” para adultos que ainda não haviam sido diagnosticados, ele também falou que podia!

Já fiquei bem contente e esperançoso. Não só obtive as receitas dos meus medicamentos psiquiátricos, como também fiquei na expectativa de, na consulta seguinte, dali a três semanas, começar o processo do diagnóstico.

Na segunda consulta, falei um pouco das minhas características autísticas principais, como a dificuldade de me socializar e fazer amigos, a sensibilidade sensorial e a baixa capacidade de perceber regras sociais implícitas.

E falei para ele que tinha uma enorme lista de características autísticas minhas escritas por mim mesmo. Ao ouvir essa informação, ele me falou que trouxesse na próxima (terceira) consulta, em novembro.

Esse relatório, escrito por mim mesmo e expandido ao longo de mais de dois anos, listava características de comportamento e desenvolvimento que eram indícios de eu ser autista.

Eu fiz essa lista contendo seis partes:
  1. Os critérios diagnósticos do “Transtorno” do Espectro Autista que constam no DSM-5 e algumas das minhas características autísticas que correspondem a cada critério;
  2. Minhas dificuldades e problemas enfrentados hoje em dia por causa das limitações trazidas pelo autismo nível 1, como o déficit de sociabilidade, a hipersensibilidade sensorial e a dificuldade de diversificar de maneira não espontânea meus interesses profissionais;
  3. As condições coexistentes prováveis ou já diagnosticadas, como Síndrome de Tourette, TDAH e distúrbio do relógio biológico;
  4. Minhas características positivas que foram possibilitadas, facilitadas ou engrandecidas pelo autismo, como minha superdotação diagnosticada desde a infância, minha imensa capacidade de empatia, meu senso aguçado de ética e justiça e meus hiperfocos;
  5. Meus comportamentos e gostos excêntricos, como meu senso de humor inconvencional, a desatenção a padrões de elegância ao me vestir e a aversão a etiquetas de roupas;
  6. Um extenso histórico de dificuldades, problemas e excentricidades com as quais lidei na infância, adolescência e juventude adulta, muitos deles persistindo até hoje.
Ao longo de mais de dois anos, essa lista foi sendo expandida aos poucos. Quando eu a utilizei para conseguir meu diagnóstico, ela tinha 20 páginas, com letras, espaçamentos e margens bem pequenos para economizar na impressão.

Eu a havia apresentado ao outro psiquiatra que, em maio de 2018, falou desinformadamente que eu “não preciso” de um laudo.

Então, nessa outra consulta com o dr. Carlos José, eu levei não só o relatório impresso, como também cópias de documentos da minha infância (entre 1990 e 1997) nos quais minha mãe (em rascunhos de cartas), fonoaudiólogos e psicólogos infantis do SUS e uma professora da alfabetização relatavam características minhas que hoje eu sei serem típicas do autismo, mas na época foram associadas apenas à superdotação.

Ele prometeu que leria tudo e daria uma resposta na consulta seguinte, que foi marcada para 4 de dezembro.

Então, nesse grande dia, fui ao Centromed com a esperança de obter o sonhado laudo, mas preparado para alguma eventual decepção.

Na consulta, ele me falou que eu tenho sim características muito evidentes de ser autista, além de uma grande inteligência e uma ótima habilidade de escrita. Me falou que eu, de fato, sou autista “leve”, o que já me deixou muito contente.

Então eu perguntei a ele: “E o laudo, o senhor pode fazer também?” Ele então começou a escrever, num papel usado para se fazer receitas de remédios, as minhas principais características de autismo que atestam que sou, por lei, uma pessoa com deficiência.

Incluiu o código F84 (não especificou o número decimal correspondente ao meu nível/tipo de autismo, justificando que isso não era necessário na obtenção dos meus direitos), correspondente ao espectro autista no CID-10. E me entregou, concluindo aquela longa busca e me fazendo ser reconhecido pela sociedade, oficialmente, como autista.

E o melhor é que, no mesmo dia, ele falou que, para eu ser confirmadamente diagnosticado também com TDAH, eu poderia entregar uma lista parecida, com características que eu tenha dessa segunda condição.

Saí da clínica - não em definitivo, já que eu continuarei me consultando com ele - radiante, me sentindo, com toda razão, vitorioso.

Senti que foi uma vitória não só minha, mas também da comunidade autista brasileira, uma vez que o laudo me dá ainda mais respaldo para ser um self-advocate da causa neurodiversa.

Conclusão

Essa foi a minha bem-sucedida trajetória, que teve vários percalços ao longo do tempo mas, nos últimos dois meses dela, se encaminhou para a conclusão, na busca do sonhado laudo de autismo “leve”.

Por meio deste relato, deixo a você uma preciosa dica: escreva um relatório com suas dificuldades, excentricidades e características positivas como autista e como essas características correspondem aos critérios diagnósticos do DSM-5 para o “Transtorno” do Espectro Autista.

E se tiver documentos da infância nos quais sua família ou algum profissional tenha mencionado características associadas ao autismo, tire uma cópia deles. Então apresente ambos a um psiquiatra que seja capacitado para reconhecer o autismo nível 1 em adolescentes e adultos e diagnosticar e laudar você.

Como hoje em dia profissionais assim são raros no Brasil, desejo a você, desde já, boa sorte ao procurar um psiquiatra entendedor de autistas “leves” de todas as idades!

Torço muito para que você, assim como eu, consiga esse tão sonhado êxito, tenha acesso aos seus direitos de pessoa com deficiência, mostre para quem até hoje tem duvidado da sua condição neurodiversa e ame-se cada vez mais do jeitinho que você é.

Informações do serviço

Dr. Carlos José Vasconcelos, psiquiatra - Clínica Centromed & Terapias
Rua das Creoulas, 300, Graças, Recife/PE, perto do Hospital da Restauração e do Hospital Santa Joana
Telefone: (81)3231.1565

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