sábado, 5 de outubro de 2019

Blog Consciência Autista responde a artigo antiautismo intitulado “Consciência autista”

Texto preconceituoso intitulado "Consciência autista" respondido pelo blog Consciência Autista. A imagem é um print do trecho inicial do artigo respondido. O print contém o dia (quinta-feira, 10 de abril de 2014) e a hora (10 da manhã) de sua publicação, o título, a foto de um menino autista com o rosto encoberto (mediante edição minha) com um quadrado cinza e os dois primeiros parágrafos. O título recebeu aspas vermelhas antes e depois de "consciência", e há uma seta vermelha apontando o escrito "de ódio ao", inserido por mim, para o espaço entre "consciência" e "autista", convertendo o título em "Consciência" de ódio ao autista. Por cima do print, está a palavra "Respondido".
Aviso de conteúdo: Este post contém diversas menções ao conteúdo preconceituoso do artigo que ele responde. Portanto, continue lendo apenas se estiver seguro de que não sofrerá gatilhos psicológicos por lembranças traumáticas envolvendo capacitismo.

Mês passado eu soube que o controverso neurocientista A.M., também conhecido como Doutor Cura por uma parte da comunidade autista, havia escrito, em abril de 2014, em seu hoje abandonado blog do G1 intitulado Espiral, um artigo chamado Consciência autista.

Trata-se de uma infeliz coincidência com o nome deste meu blog, Consciência Autista. Eu a lamento porque o tal texto contraria todos os valores éticos e sociopolíticos que eu defendo aqui. Ele fundamenta ideologicamente a busca incessante de seu autor por um futuro no qual personalidades, jeitos de ser e talentos como os meus e os seus, caso você também seja autista, sejam extintos.

Agora sabendo de sua existência, me senti na obrigação ética de trazer uma resposta à altura, que defenda a honra e a dignidade minha, deste blog e de toda a população autista, contra uma ideologia moral e “científica” que não tolera que nós existamos do jeito que somos.

Assim sendo, convido você a ler esta resposta do blog Consciência Autista (com o A de Autista maiúsculo) ao artigo Consciência autista (com A minúsculo).

Um texto de caráter inteiramente patologizante

Ao contrário deste blog, o artigo infelizmente homônimo se baseia numa visão completamente patologizante, cientificista e mecanicista sobre as condições do espectro autista.

No texto, A.M. não chama o autismo de doença, mas o trata, o tempo todo, como se fosse uma - e das mais perigosas e abomináveis. Compara sutilmente a nossa condição ao câncer e a doenças neurodegenerativas em um determinado trecho. Considera-a um “defeito” tanto cerebral quanto genético. Para ele, os nossos cérebros autistas seriam defeituosos, problemáticos, anormais e sobretudo doentes.

Além disso, ele considera que o crescimento das estatísticas de autistas diagnosticados, confundido com um aumento da “prevalência de pessoas afetadas (sic)”, é nominalmente um “problema”, tal como a propagação de uma doença. Manifesta o desejo de que o espectro autista possa ser “curado”, para quem é autista, ou “prevenido”, para quem ainda vai nascer, entre outros impropérios mascarados de “ciência”.

No mais, pelo que o texto implicita, “consciência autista” é acreditar que o autismo é tão terrível quanto o câncer ou o Mal da Vaca Louca, causa “defeitos” em nossos cérebros e deveria ser “curado” ou “prevenido”. Ou seja, uma “consciência” antiautista, contrária à nossa existência e dignidade.

Respondendo aos argumentos do texto

A seguir, respondo a cada um dos argumentos mais falsos e intolerantes que o artigo traz.

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"[...] o autismo [é uma] condição especificamente humana que afeta a percepção social e comunicação dos pacientes (sic)."

O autismo é uma condição neurológica que acarreta diferenças não só na percepção social e na comunicação, mas também na interação sensorial com o mundo, no uso da linguagem, no hiperfoco em um leque restrito de interesses especiais, na inteligência (no caso da superdotação de diversos aspies e savants) etc.

Em outras palavras, o espectro autista diz respeito a muito mais do que só comportamentos sociais e comunicacionais.

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"Infelizmente, os sintomas muitas vezes são confundidos com birra, desinteresse ou falta de educação pela população leiga. Não vejo isso como preconceito contra o autista, mas falta de conhecimento."

Falta de conhecimento é uma das maiores causas dos preconceitos. No caso do espectro autista, neurotípicos que não têm ideia da diversidade do mesmo tendem a acreditar que todo autista corresponde ao estereótipo do menino branco que não fala, não se comunica, só se expressa gritando ou chorando e tem deficiência intelectual severa.

Ou seja, quando não conhece verdadeiramente um determinado tema, o indivíduo tende a ter crenças falsas, ou muito negativas ou irrealmente positivas, a seu respeito.

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"[...] a frequência de autismo em meninos continua 5 vezes maior do que em meninas."

Essa frequência se trata, na verdade, dos atuais diagnósticos de autismo. Ou seja, existem cinco (ou quatro) vezes mais meninos e homens neurodiversos diagnosticados do que meninas e mulheres autistas com essa mesma sorte. É falsa a crença de que tal estatística diria respeito à real proporção entre autistas dos dois gêneros.

Visto que, até hoje, a maioria dos pesquisadores e profissionais de saúde “capacitados” em espectro autista não entende os perfis autísticos femininos e não binários, os verdadeiros percentuais de autistas meninos/homens, meninas/mulheres e queers/transgêneros são desconhecidos.

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"A prevalência de autismo tem crescido de forma alarmante (sic): aumentou em 125% desde 2002, 29% entre 2008 e 2010. Quanto desse crescimento significa mais diagnósticos ou mais indivíduos afetados realmente é difícil de saber. Por isso mesmo, é importante ampliar os estudos para que se tenha uma visão mais precisa do tamanho do problema (sic), além de insights sobre possíveis causas desse crescimento acelerado."

Assim como no trecho anterior, M. trata como “frequência de autismo” uma questão de diagnósticos e também formas de reconhecimento da parcela não diagnosticada da população autista.

O artigo Estudos de prevalência sobre o Autismo revela que o “crescimento ‘alarmante’ do autismo” não tem nada a ver com estar nascendo um percentual maior de autistas, tampouco com pessoas “pegando autismo”. Mas sim com motivos como o gradual amadurecimento dos profissionais de saúde mental e da consciência da sociedade sobre a necessidade de diagnosticar a condição.

Além da estatística mal interpretada, esse trecho chama a atenção por chamar o crescimento da população reconhecida como autista de “alarmante” e “problema”. Tal atitude reflete a convicção do autor de ver a nossa condição como um “mal” que ele pretende “combater”.

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"Seria razoável imaginar então que essa seria a frequência real de crianças autistas? Ou será que existem fatores ambientais em determinadas regiões que favorecem o autismo?"

Em primeiro lugar, essa não é a frequência real. Na verdade não chega nem perto de ser! Existe uma população desconhecidamente imensa de autistas não diagnosticados, muitos dos quais sequer sabem de sua condição, tal como foi o meu caso até março de 2017.

A proporção de autistas na população humana total é inimaginavelmente maior do que as fracas estatísticas atuais. E ao contrário do que o Dr. Cura diz, isso não é nenhum problema.

E em segundo, quando ele fala de possíveis “fatores ambientais em determinadas regiões que favorece[ria]m o autismo”, somos levados a pensar em fatores negativos. Entre eles, a poluição, que fatalmente nos remete ao mito antivacina de que metais pesados causariam autismo em crianças.

Talvez o neurocientista não tenha percebido, mas seu discurso pode induzir o assassino movimento antivacina a acreditar que “a ciência deu razão” ao argumento sobre o autismo ser “causado” por alguma forma de contaminação.

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"[...] o custo de vida de um indivíduo autista foi estimado em 2006 por um grupo de Harvard em U$3,2 milhões de dólares (sic) [...] Uma nova análise econômica foi feita recentemente [...] projeta[ndo] um aumento de aproximadamente U$17 mil dólares (sic) por ano. Apenas 18% desse custo é relacionado com saúde. Metade é atribuída a custos educacionais."

Quando alguém como ele complementa seu discurso de ódio contra autistas dizendo que ter filhos neurodiversos “custa muito caro”, acaba deixando margem a atitudes atrozes por parte da opinião pública. Uma delas é a defesa da eugenia, para que, por meio da seleção genética, crianças autistas deixem de nascer.

Outra é a medida desesperada de pais em situação socioeconômica vulnerável tentarem “curar” o autismo dos filhos dando-lhes substâncias tóxicas, que na verdade não curam nada e podem até matar, como o dióxido de cloro, também conhecido como MMS. Afinal, se essas crianças fossem “curadas” tal como seus vendedores e defensores prometem, a família poderia economizar cinco dígitos de dólares por ano e passar menos dificuldades financeiras.

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"Assumindo 673 mil crianças com idades entre 3 a 7 anos diagnosticadas com autismo nos EUA, o gasto (sic) total do Estado americano com autismo (sic) é de cerca de U$11,5 bilhões por ano"

Ou seja, segundo o artigo, investir em políticas de acolhimento e inclusão de autistas causa “prejuízos bilionários” ao Estado, logo seria preferível investir em “ciência” para “prevenir” ou “reverter” o autismo.

Em outras palavras, patologizar e eliminar uma parte da diversidade humana é “mais econômico”, portanto “melhor”, do que respeitar e atender pessoas com deficiência e lhe assegurar direitos sociais.

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"Infelizmente, hoje em dia, com a crise nos EUA, meros US$ 100 milhões são destinados à pesquisa sobre o autismo pelo NIH - a maior agência de fomento para a ciência americana. Uma fração relativamente pequena se comparada com a verba alocada para pesquisa em câncer ou doenças neurodegenerativas."

Sem nenhum pudor, M. compara o autismo com patologias terríveis e até letais, como o câncer e o também já citado Mal da Vaca Louca, uma doença neurodegenerativa. E deixa a entender que, assim como essas duas doenças deveriam ser erradicadas, as diferenças cerebrais autísticas também mereceriam o mesmo combate por parte das instituições de saúde.

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"As anomalias (sic) anatômicas são sutis e variáveis, mas presentes em 10 dos 11 cérebros analisados, todos doados para ciência pelas famílias de autistas. Apenas um dos controles apresentou defeitos (sic) semelhantes (1 em 11 analisados). [...] acho o estudo interessante, pois esses defeitos (sic) podem ter sido causados por mutações genéticas somáticas que se acumulam no cérebro durante o desenvolvimento."

Este trecho revela muito bem que o autor enxerga os nossos cérebros como “defeituosos” e “anômalos”, ou melhor, “quebrados” e “anormais”. Para ele, deveriam ser “consertados” pela ciência.

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"É verdade que o autismo ainda é um mistério. Não sabemos quando ele surge, quais as características cerebrais, ou mesmo se é uma ou são várias síndromes agrupadas por diagnósticos clínicos meramente comportamentais."

Pelo que fica evidente, a única preocupação de pessoas como ele é com os aspectos “mecânicos” do autismo - o que ele é, como surge e como “atua” no cérebro. Aquelas questões que dizem respeito aos desejos, necessidades, dificuldades e demandas sociais e políticas dos próprios autistas, entre eles como o capacitismo dificulta as nossas vidas e leva tantos autistas ao suicídio, não lhes interessam.

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"Diversos trabalhos científicos mostram que o autismo pode ser tratado ou mesmo reversível."

Este trecho deixa praticamente óbvio que A.M. encara o espectro autista como uma doença que deveria ser curada.

E apesar de dizer que “diversos trabalhos científicos” satisfariam o seu anseio por um mundo sem autistas, ele não revela que pesquisas seriam essas, nem se já foram testadas e replicadas. Portanto, comete a falácia do apelo à autoridade anônima.

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"Acredito na individualidade do autista e numa futura medicina personalizada. Enquanto isso não se torna realidade, crianças e adultos autistas precisam de melhores serviços. A melhor forma de conseguir serviços mais eficientes é justamente através da ciência."

O que chamou minha atenção neste trecho foi a terceira frase. Ela basicamente nega que a atuação política, em prol da inclusão e do atendimento amplo e irrestrito aos autistas e do combate ao preconceito, seja a melhor maneira de se conseguir serviços mais eficientes para os autistas.

Além disso, o Dr. Cura quer sobrepujar o atendimento inclusivo e a desconstrução do capacitismo entre a sociedade com “serviços” de “correção” do autismo. Afinal, pelo que o artigo deixa claro, ele quer que a ciência proporcione que os autistas de hoje sejam “curados” e nenhuma criança mais no futuro nasça autista.

É um claro caso de alguém reivindicando a supremacia do modelo médico do autismo, de patologização e tentativa de cura da condição, sobre o modelo social, de aceitação, inclusão e respeito integral a nós autistas do jeito que somos.

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"Conforme entendemos o que acontece com o cérebro em desenvolvimento, que deixa uma criança sem comunicação, ou incapaz de interagir socialmente, estaremos melhor preparados com diagnósticos mais precoces e melhores intervenções."

Você se lembra do estereótipo do autista, mencionado mais acima, que seria um menino branco que só se expressa gritando ou chorando? Pois bem, o autor do texto reforça, perante os leitores, a crença de que a manifestação do autismo é basicamente essa figura imaginária.

Além disso, ele alimenta outro mito, o de que o autista não oralizado “não se comunica” e é “incapaz” de interagir socialmente. Ignora que geralmente autistas que não sabem falar podem sim utilizar ferramentas de comunicação alternativa e, por meio delas, interagir com outras pessoas.

E o melhor: utilizam-na não só para comunicar necessidades imediatas e expressar sentimentos, como também para discursar sobre suas demandas sociais e políticas, a exemplo de Amy Sequenzia, Philip Reyes, Naoki Higashida [link afiliado] e Emma Zurcher-Long.

Conclusão

Infelizmente a “consciência autista” que A.M. tentou propagar por meio do seu texto é a “consciência” de que é “preciso” rejeitar e combater o nosso jeito de ser, tratorar nossos desejos de inclusão e livramento do capacitismo e nos forçar a sermos convertidos em neurotípicos. Afinal, nosso “defeito” cerebral seria um “problema” para o mundo tanto quanto o câncer.

Ou seja, sua “consciência autista” é basicamente ódio ao autista.

É exatamente o contrário do que este meu blog faz - trazer a verdadeira Consciência Autista, de que nós autistas nos amemos do jeitinho único e brilhante que somos, que os neurotípicos nos aceitem de verdade e nos incluam.

Pois bem, tendo em vista que existe um artigo antiautismo com o mesmo nome deste blog, esta minha resposta limpa a reputação e dignidade do nome Consciência Autista. Afinal, não quero que alguém venha a associar esta expressão à intolerância capacitista, disfarçada de bom-mocismo “científico”, propagada por pessoas como o antiético Dr. Cura.

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