quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Se você tem grande parte dessas características, então muito provavelmente também é autista leve



Muitas pessoas, sem acesso a neuropsicólogos e psiquiatras que entendam de Síndrome de Asperger, não sabem que são autistas.

Tem muita gente que passa a infância e a adolescência, se torna adulta, envelhece e até falece sem ter consciência de sua condição, do porquê de ser/ter sido uma pessoa tão diferente dos neurotípicos. Foi o meu caso até os 30 anos de idade.

Tendo esse sério problema psicossocial (o desconhecimento da condição, não ela em si) em vista, eu quero ajudar você a se conhecer melhor e se redescobrir.

Trago a seguir uma lista de características típicas de autistas aspies. Confira por meio dela se você também é um de nós.


Será que você também é autista aspie? Confira quais comportamentos dessa lista você tem


Se você tem boa parte ou a maioria (estimo que pelo menos 40%) dessas características:
  • Tem dificuldades sérias de socialização, ou mesmo falta de interesse de participar da maioria dos eventos sociais com família, parentes e amigos;
  • Tem dificuldade de fazer e manter amizades, podendo até ter desistido de ter amigos;
  • É muito introvertido, ainda mais do que a média;
  • Não vê graça em muitos costumes culturais que a nossa sociedade costuma valorizar e envolvem socialização e extroversão, como festas, bebidas alcoólicas, futebol, reuniões de família, baladas etc.;
  • Costuma viver socialmente isolado;
  • Não consegue perceber, nem entender, regras sociais implícitas, que não costumam ser reveladas verbalmente;
  • Possui uma enorme dificuldade, ou mesmo inabilidade, de manter contato visual com outras pessoas, mesmo se for o amor da sua vida - e sente-se mal quando tenta se forçar a olhar nos olhos da outra pessoa por mais do que alguns segundos;
  • Tem ou teve uma enorme dificuldade de encontrar um(a) namorado(a) com quem tenha um relacionamento estável, por motivos como dificuldade de paquerar e entender a linguagem não verbal dos(as) pretendentes, ser preterido por ter comportamentos socialmente indesejados ou ser considerado “esquisito” ou “anormal” etc.;
  • Possui um interesse muito forte, o hiperfoco, num único tema ou em poucos temas - ex.: Astronomia, História Antiga, Sociologia, Robótica, Evolução, Ecologia, Matemática, dinossauros, xadrez, música erudita, ferrovias, Veterinária, Computação, Geologia, Artes Plásticas, moda etc.
  • Esse hiperfoco dura a vida inteira ou você costuma mudar de hiperfoco periodicamente;
  • Tem um senso de humor excêntrico, como rir ao jogar videogame de maneiras bizarras (ex.: jogar games de futebol para fazer gols contra e expulsar jogadores, jogar games de ação para matar o protagonista repetidas vezes, jogar games de luta para apanhar ao invés de vencer os adversários), gargalhar com falas nas quais “normalmente” não se vê valor humorístico, contar piadas que para os neurotípicos fazem pouco ou nenhum sentido, rir de cenas “normalmente” não humorísticas (ex.: ao ver o protagonista de um anime japonês de luta apanhar) etc.;
  • Faz sons de ecolalia - ex.: repete sozinho palavras que para você soam interessantes ou engraçadas, imita rosnados ou grunhidos, imita peidos com a boca, imita a sonoplastia de um soco, repete alguns sons ou falas rápidas que ouve…;
  • Tem muita sensibilidade a ambientes barulhentos, com muita luz, com cheiros fortes (sejam perfumados, neutros ou desagradáveis) e/ou com muitas pessoas falando em voz alta ao mesmo tempo;
  • Tem muita sensibilidade ao toque, a abraços, a etiquetas de vestimentas, à textura do tecido ou malha que compõe a roupa, ao toque do cabelo na pele etc.;
  • Tem aversão a estampas posicionadas de certas maneiras na camisa - como por cima dos dois peitorais;
  • Sofre ou sofreu preconceito e até bullying por ser considerado “esquisito”, “doido”, “retardado”, “anormal”, entre outros impropérios motivados por ódio às diferenças psicológicas;
  • Tem dificuldades de entender ironias e figuras de linguagem;
  • Tem dificuldade de saber quando alguém fala algo brincando ou sério;
  • Tem muita sensibilidade a situações de conflito próximas, como pessoas brigando ou falando com raiva;
  • Tem baixa tolerância à frustração - como quando o computador, celular ou tablet está muito lento e dando erros, algum acontecimento frustra expectativas positivas suas, seus pais proíbem você de algo etc. -, sentindo uma enorme raiva ou tristeza diante de situações do tipo;
  • Expressa emoções de maneira fraca ou mesmo não consegue expressar algumas emoções, como euforia ao ganhar um prêmio valioso num concurso ou loteria ou ao ver o seu time de futebol conquistar um campeonato nacional, tristeza e dor quando um ente querido morre, paixão romântica etc.;
  • Tem um comportamento considerado imaturo para a sua idade - ex.: você tem 25 anos, mas pessoas próximas dizem que você se comporta como um adolescente de 16;
  • Possui uma ou mais condições neuroatípicas coexistentes ao seu provável autismo, como Síndrome de Tourette, TDAH, TOC, fobia social, dislexia, transtorno de ansiedade, transtorno opositivo-desafiador, déficit da função executiva etc.;
  • Começou a falar tardiamente, com três ou mais anos de idade - neurotípicos costumam começar a falar com cerca de um ano e meio;
  • Tem uma sinceridade excessiva e desmedida, cometendo com certa frequência os chamados “sincericídios” e passando por situações de constrangimento e cortes de relações por causa disso;
  • Tem dificuldades acima da média de tolerar pressão de chefes e supervisores em empregos;
  • Tem dificuldades de entender e usar linguagem não verbal, como postura, gestos manuais, movimento dos olhos, expressão facial etc.;
  • Tem uma maneira “científica” de criar empatia por alguém - por exemplo, precisa imaginar como a pessoa sofre em situações adversas para poder entender o sofrimento dela e, só assim, manifestar sua compaixão;
  • Precisa ter um comportamento muito diferente do que lhe é natural quando interage com pessoas - por exemplo, em situações sociais, finge ser mais simpático e comunicativo ao falar com outras pessoas. Ou seja, metaforicamente falando, precisa vestir uma máscara de neurotípico para aumentar suas chances de se comunicar bem;
  • Tem comportamentos antissociais e isolacionistas desde a primeira infância;
  • Tem os chamados stims, considerados “estereotipias” ou “manias” pelos neurotípicos, como balançar os pés ou as pernas, agitar as mãos, dar pulinhos quando está só, bater os dedos um no outro perto do ouvido, fazer tiques faciais etc., manifestando-os para aliviar o estresse ou expressar alguma emoção significativa;
  • Gosta de ouvir um mesmo som repetidas vezes, obtendo prazer com isso - ex.: um personagem detestado de anime de luta apanhando e gemendo, carros batendo, telefone desligando com força, explosão de um game específico etc.;
  • Sente mal-estar e sobrecarga sensorial em lugares e eventos lotados, como ônibus e trens, manifestações de rua, baladas, eventos sociais, estádios de futebol, carnavais etc.;
  • Tem crises nervosas, ou se isola numa espécie de concha invisível, em situações de sobrecarga sensorial ou estresse excessivo;
  • Sente que o modelo tradicional de ensino escolar e universitário não rende um bom aprendizado para você;
  • Não gosta de Educação Física, nem de praticar esportes;
  • Tem uma coordenação motora mais precária do que a média;
  • Tem comportamentos muito contrastantes em certas situações: por exemplo, sente-se um(a) menino(a) imaturo(a) em situações de socialização e conversas sobre temas que não lhe interessam, mas discursa como um gênio supermaduro com anos de estudo quando o tema da conversa é seu hiperfoco/um dos seus hiperfocos;
  • Tem um currículo profissional muito pobre, com pouquíssima experiência profissional e vocação extremamente restrita e inflexível, tendo uma enorme dificuldade de encontrar um emprego por causa disso;
  • Não se interessa, ou tenta se interessar mas não consegue, em fazer cursos que não correspondem ao seu hiperfoco;
  • Tem uma vida repleta de rotinas bem regradas, e se sente mal quando alguma rotina é inesperadamente quebrada;
  • Precisa planejar quando vai sair de casa para ir a algum lugar - como um shopping ou um restaurante - e não gosta de marcar compromissos surpresa (por exemplo, quando algum amigo liga e diz que vai sair daqui a uma hora);
  • Tem um gosto musical muito restrito - por exemplo, só ouve rock e metal, ou só música new-age e erudita, ou só forró e pagode etc., não conseguindo gostar de outros ritmos;
  • Tem uma expressão facial geralmente neutra ou pouco intensa;
  • Tem um passado cheio de traumas, sente que não viveu e não está vivendo a vida em sua plenitude;
  • Sente que é diferente da maioria da sociedade, mas não sabe por quê;
  • Já tentou parecer mais “normal” e “igual” aos neurotípicos, mas nunca conseguiu manter essa aparência por mais do que algumas horas ou dias e não sabe por que não consegue;
  • Recebe, com certa frequência, reprimendas e/ou “tirações de onda” de amigos e parentes por comportamentos socialmente indesejados;
  • Possui hábitos anti-higiênicos, como cheirar “cecê” das axilas ou a cera dos ouvidos e tomar banho com frequência abaixo da socialmente aceita;
  • Tem uma dificuldade de se emancipar materialmente dos pais muito maior do que a dos neurotípicos, podendo ter mais de 30 ou 40 anos de idade e ainda morar com eles e depender deles financeiramente, mesmo num contexto de ausência de crise econômica;
  • Tem uma vida universitária instável, com desistências, trancamentos, mudanças de curso, reprovações frequentes e/ou fracassos em vestibulares e exames de pós-graduação;
  • Tem frequentemente a sensação de que não se encaixa no mundo;
  • Tem muita dificuldade de se defender de pessoas falsas, traiçoeiras, manipuladoras e tóxicas e não consegue saber quando um “amigo” é falso;
  • Não consegue entender muito bem por que os neurotípicos de nossa cultura possuem certos costumes, como o apego a bens materiais, a competição meritocrática e a necessidade de se autoafirmar perante a sociedade;
  • Tem dificuldade de se defender de insultos e agressões;
  • Já foi discriminado, repreendido e/ou insultado diversas vezes por manifestar comportamentos socialmente indesejados;
  • Tem um jeito desengonçado de caminhar e correr;
  • Tem uma coordenação motora bastante imperfeita;
  • É superdotado e tem conhecimentos típicos de alguém muito estudioso no(s) seu(s) hiperfoco(s);
  • Prefere ficar na biblioteca lendo/estudando a interagir com colegas de classe;
  • Costuma ser muito coerente em termos de ética e moralidade e questionar por que a maioria dos neurotípicos é tão incoerente e contraditória;
  • Tem um medo exageradamente grande ou admiravelmente pequeno da opinião alheia sobre você;
  • Obteve um escore tendente à neurodiversidade no Aspie Quiz;
  • Tem um raciocínio lógico muito avançado;
  • Costuma ter um tom de voz neutro, pouco ou nada passível de modulações,
Então tudo indica, ou no mínimo há uma probabilidade notável, que você também é um autista leve que até então nunca se descobriu assim e nunca recebeu o devido diagnóstico.


Grande parte das características dessa lista batem com quem eu sou! O que fazer agora?


Se você e sua família tiverem condições financeiras de arcar com o custo das consultas com um neuropsicólogo, procure um que entenda de Síndrome de Asperger em adolescentes e adultos.

Ele irá, com os devidos testes clínicos - que não passam por exames físicos cerebrais, salvo se houver a intenção de descartar outras condições neurológicas -, confirmar que você é autista leve e encaminhá-lo a um psiquiatra, que irá redigir o diagnóstico definitivo e o laudo autístico.

Com o laudo em mãos, você passará a desfrutar de todos os direitos que pessoas com deficiência possuem. Afinal, o autismo leve é uma deficiência invisível, de cunho psicossocial, que acaba nos limitando em muitas coisas na vida - ainda que tenda a nos fazer ser, por exemplo, mais sinceros, mais leais, mais eticamente coerentes, mais questionadores, mais inteligentes, entre outras vantagens.

E se você não tiver o dinheiro para isso, a alternativa será você ler e aprender mais sobre a Síndrome de Asperger, a identidade social autista/aspie e, com a devida identificação sua com as características centrais e muitas das secundárias da condição, assumir-se autista para o mundo. Tal como foi o meu caso em 2017.

E uma observação: provavelmente seu diagnóstico será de autismo leve, não Síndrome de Asperger nominalmente falando, já que este termo caiu em desuso no CID-11 e no DSM-5.


Conclusão


A lista trazida por este artigo pode ser aquilo que faltava para você (re)descobrir quem você realmente é, e por que é quem é.

Digo isso porque, se eu mesmo tivesse tido acesso a esta lista nos anos em que eu não sabia da minha condição, eu teria me descoberto aspie muito mais cedo.

Eu espero que este artigo tenha sido um divisor de águas, aquilo que fará ou fez você descobrir aquilo que até então nenhum psicólogo ou psiquiatra havia descoberto em você: que é autista leve.

7 comentários:

  1. Hm... Com certeza tenho muitas características dessa lista. Mas não sou superdotado, acho que tenho hábitos higiênicos frequentes, algumas coisas como a frustração eu consegui diminuir com meditação, mas também acabo usando um "método científico"... E acho que não tenho hiperfoco. Ou tenho e não identifiquei.

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    1. Pode crer... Como eu comentei a vc em outro post, na verdade não existe ninguém que tenha 100% dessas características que o artigo lista. Melhor ainda, não existem duas pessoas que tenham 100% de suas características autísticas em comum.

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  2. Sem contar que sou bem caótico e faço as coisas só quando dá vontade.

    Se bem que me chamam de "metódico" com certa frequência. 🤔

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  3. Desculpa os comentários picados, minha cabeça não está funcionando muito bem. 🙄
    Percebi que às vezes fico fazendo "brrrrr" sem motivo aparente, mas me acalma um pouco. 🤔

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    1. Relaxa =) Sobre esse "brrrr", tem cara de ser um stim, que tem justamente a função de regular o estresse dos autistas.

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  4. Legal, Robson. Segundo post que leio do seu blog. Me identifiquei com várias coisas que li. Muita coisa faz mais sentido agora. Valeu por compartilhar sua experiência de vida.

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